sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Poema do sempre que nunca passa














Toca o sino da igrejinha.
Cidade pequena de praça e coreto,
gente simples de rotina sempre a mesma,
tão sempre a mesma gente, meu Deus!

Igreja eternamente cheia de senhorinhas carolas,
cores sóbrias e terços nas mãos,
a vida inteira a escorrer lá fora.

Sempre a mesma vidinha sem graça, meu Deus,
e sempre a mesma confiança cega
de que tudo vai melhorar
no Natal, no ano que vem, na próxima estação...

Mas (pergunta alguém) as coisas não melhoram?
Diz o velhinho na praça: se melhorar, piora.

texto e fotografia por Eduardo Trindade

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Estranhos Amantes

Quando acordei, estavas ao meu lado e não te reconheci. Deslembrado eu do tempo em que te levar para a cama era uma arriscada e doce aventura. Levantei-me, escovei os dentes, olhei-me no espelho e havia outro rosto a me mirar. Outro, não eu, a quem devia pertencer a mulher que se estendia na cama, adormecida. Outro que por certo te havia jurado amor eterno. Houve um tempo em que me apaixonei pelo teu jeito de dormir; pelo jeito com que sorrias, movimentando de leve os lábios num gesto tão natural, mesmo desacordada. Mas depois fui eu que me entreguei a um sono longo, não sei quanto tempo passei longe de tudo, longe de mim. Quando acordei, ao teu lado, estava tão longe de ti. Envergonhado, vesti-me. Acordaste e eu não soube o que dizer, tu me chamaste de volta para a cama alegando ser domingo. Então tornei a deitar, mas eu estava ausente. Fiquei ouvindo a arruaça que os pássaros faziam lá fora enquanto te rias, que tolo eu era, onde andava com a cabeça, acordar em pleno domingo e me vestir para o trabalho, depois tu me chamares para a cama e eu me deitar com a camisa imaculada, amassando os vincos tão bem passados por tuas mãos carinhosas. Miraste-me com leve repreensão, eu fechei os olhos. Tu me desabotoaste a camisa, procurando meu peito com a mão, que mão aquela, de toque tão estranho ao meu tato, quem eras, como podias me querer assim, aquilo era querer? E o amor o que era, amor por quem? Ao lado da cama havia um porta-retratos, dois rostos felizes colados um ao outro contemplavam a eternidade. Fitei-os como quem tenta entender, depois tive vergonha por devassar a intimidade de anos daqueles rostos, intimidade que não me pertencia, terá alguma vez me pertencido? Ao meu lado, na cama, afastaste o lençol e eu pensei em evitar teu corpo despudoradamente só de camisola, mas não reparaste e buscaste um abraço que eu não soube retribuir, envolveste-me e sussurraste — tu te lembras do nosso primeiro beijo? Eu não tive coragem de te encarar, não saberia confessar para ti, uma estranha, a minha desmemória, o meu afastamento, a minha desconfiança, a minha ignorância. Silenciei e encarei a porta do quarto, a moldura de madeira por onde entrou correndo uma menina, uma menina incrivelmente parecida com a moça que, nunca esquecerei, eu havia jurado amar eternamente. A menina tinha os olhos da moça da foto e veio gritando até nós — papai, mamãe! Então eu chorei baixinho e soube como nunca que, pela primeira vez, nem tu nem ninguém poderia enxugar o meu pranto.

texto e fotografia por Edurado Trindade

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Astronauta

Diziam que a lua era feita de queijo. Diziam às crianças.
Curioso isso, não?
Diziam a nós, crianças que sequer gostávamos tanto assim de queijo!
Mas ninguém dizia que a lua era de chocolate branco ou que o sol era uma imensa gemada.
Cresci aprendendo a gostar de queijo.
Descobri que a lua era feita de uma areia branca e finíssima.
Astronauta, eu?
Hoje, corro na praia.

Eduardo Trindade

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Barba Branca

Crônica de fim de ano
A antevéspera do Natal acentuava o mau humor. Que dizer de todas aquelas decorações das lojas, que dizer das propagandas de coca-cola que a televisão mostrava? Tudo muito bonito... Tudo merecendo prêmios em Cannes, tudo tão pouco espontâneo. Ele tinha nome de santo, e no entanto fora preterido para uma vaga de Papai Noel de shopping. Orgulhava-se da barba branca, vasta, cultivada a custo, e fora passado para trás por um ninguém qualquer com adereços de plástico. Agora, caminhava pela rua, aos trambolhões com a multidão impaciente. A iluminação das vitrines incendiava seu mau humor. Sua barba inútil. Hirsuta.
Barba hirsuta. Tinha aprendido a palavra num filme. Adjetivo besta que só serve mesmo para se aplicar a uma barba de desempregado como a dele. Inútil. Adiava a hora de voltar para casa, não queria encarar a mulher. Imprestável, dissera-lhe ela, mas a culpa não era dele. Teimara com ela e chegaram a discutir. Depois saíra à rua em busca de carinho e fora recebido por outdoors coloridos. Nas calçadas, bancas com papais-noéis eletrônicos ensaiando danças ridículas, camelôs com gorros vermelhos gritando feliz-Natal, tudo na promoção.
— Malditos produtos chineses! — extravasou ao esbarrar num amontoado de pinheirinhos de plástico.
Seguiu chutando cascalhos. Por pouco não acertou a canela de uma mulher gorda que vinha na direção contrária carregando sacolas. Meteu as duas mãos nos bolsos. Em um deles, o celular pré-pago sem créditos. No outro, um furo.
— Porcaria! — havia perdido, pelo bolso furado, as moedas dadas como troco pelo cobrador do ônibus. Emprego idiota esse de cobrador de ônibus, só não é mais idiota que o emprego de ascensorista. Quem precisa de ascensorista, será que existe alguém no mundo que não sabe operar sozinho um elevador? Em vez de ascensoristas, bem que podiam inventar uma profissão para ajudar velhinhas a usar o caixa eletrônico dos bancos. Assim, talvez, diminuíssem as filas.
— Bem que eu podia ser contratado para ajudar as velhinhas no maldito caixa eletrônico... — pensou em voz alta, contra seu costume. Ultimamente, dera para isso: falava sozinho, coisa de doido varrido. Praguejou contra si mesmo.
Quis atravessar a rua, parou à espera de que se acendesse a luz verde. A poucos metros, uma loja de eletrodomésticos. Várias televisões exageradamente grandes reproduziam todas a mesma cena de um videoclipe: a versão brega de uma canção natalina. Então, do interior da loja saiu uma moça de vestido levando dois meninos pelas mãos. Ficou reparando nas curvas sob o tecido, achando incrível que ela já fosse mãe de dois pirralhos e concluindo que as mulheres estão mesmo começando cada vez mais cedo. Como a sinaleira ainda estivesse fechada, aproximaram-se o suficiente para que um dos meninos o perscrutasse por trás da barba até o íntimo de seus olhos. Neste instante se acendeu o bonequinho verde na sinaleira para pedestres e o homem com nome de santo saiu apressado, misturando-se à multidão de figurantes do centro da cidade, mas não tão rápido que o impedisse de ouvir, às suas costas, a voz eufórica:
— Mamãe, mamãe, eu vi o Papai Noel, lá vai ele disfarçado de vovô!
Passou a mão pela barba branca, hirsuta, como aprendera no filme, e não conseguiu resistir ao primeiro sorriso do dia.

Eduardo Trindade

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Dos espaços


Em todos os cômodos da casa
depois que te foste
restou um incômodo
...................................vazio.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cena de Verão

Este suor que escorre pelo rosto e evapora antes que possamos enxugá-lo, esta areia que gruda no corpo, esta brisa que parece nunca ser suficiente, esta vontade de esquecer as horas. Esta praia. Este óculos que usas e onde vejo meu rosto, eu que preferiria vê-lo refletido em teus olhos. As crianças mais adiante jogando bola e a minha apreensão por um chute mal dado que possa te acertar. O romance policial deixado de lado, como ler na praia? Os corpos exuberantes por todos os lados. Tão exuberantes e abundantes, tão monótonos. Tua pele branca e a minha preocupação com os raios ultravioleta, o buraco na camada de ozônio. Tua pele deliciosamente mais bonita que a de qualquer mulata, pele autêntica. O pregão de um vendedor de picolés que derretem antes do fim. Um velhinho que passou e olhou para teu corpo, um velhinho que me encheu de ciúmes — todo cuidado é pouco! Um homem assumidamente ciumento, eu. Inseguro, sim. Seguraria teu pulso para apontar o avião que desenha corações lá no alto. Mas dormes. Um sonho de verão? O relógio no teu pulso, o ponteiro e as horas que não deviam passar nunca. A maré que sobe, teus pés molhados, levantas-te de súbito. Assustada com a hora, já é tarde! Vais-te embora às pressas, recolhendo toalha e chinelos e teu corpo assumidamente branco. Nem olhas para mim, esquecido e inofensivo. Julgas que não me conheces. Voyeur? Eu te amaria antes de te conhecer, mas li o verão inteiro no teu pulso, agora ficou tarde.

Recados
1. Lembro que este pequeno conto, como a maioria dos meus textos, é uma obra de ficção.
2. A votação do TopBlog se encerrou e eu agradeço profundamente a todos que contribuíram para colocar este cronista virtual entre os finalistas. Obrigado mesmo!
3. Como forma de agradecimento e também como mimo aos leitores (os fiéis e os não tão fiéis, que este blogue é como coração de mãe), pretendo fazer uma promoção para distribuir três livros. Aguardem! E aos que tiverem sugestões sobre como deve ser a promoção, por favor me escrevam!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Todas as cartas de amor


Juntei os cacos de palavras, os restos de páginas partidas, as sobras de frases nunca ditas. Uni, colei e aproximei com vírgulas, preposições, conjunções e até com adjetivos (todas as cartas de amor são ridículas). E reticências. Preenchi os espaços vazios com reticências como, nos mapas antigos, as figuras de seres fantásticos cobriam as áreas ainda não exploradas pelos navegadores. Tanto a descobrir, tanto a ser dito, e eu me perdendo em devaneios. Distraí-me com arabescos no canto da folha enquanto esperava o telefonema, a noite, a inspiração. A coragem não veio e o silêncio não ajudou. No escuro, atabalhoado, deixei que fossem ao chão as peças do quebra-cabeça. O vento levou, a poeira cobriu, o tempo comeu e nunca ficaste sabendo. A gaveta amarelou o que nunca lancei ao ar, ao mar. Como nunca me lancei a teus braços. As rimas soltas não chegaram a se encontrar, a semente que poderia ter florescido adormeceu no mofo de um quarto sem luz enquanto, lá fora, ias rindo pela rua, mãos e lábios unidos a alguém que escrevia menos e agia mais. Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.

Eduardo Trindade,
com citação de Álvaro de Campos

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Da Origem das Espécies

Aviões a jato,
teleconferências,
Internet
(MSN, twitter, facebook e afins),
o universo
numa casca de noz,
três dimensões,
quatro dimensões,
realidade virtual...

Sim, está fundada uma nova espécie:
exultemos,
vivemos a era
do Homo virtualis.

Explosão demográfica,
ruas e calçadas
tão cheias de gente,
do novo Homo virtualis.

E as pessoas se esbarrando
presas no trânsito,
presas da rotina
(faminto tigre dente-de-sabre pós-moderno),
as pessoas batalhando
pela conexão nossa banda-larga de cada dia
e pelos domingos na praia
(congestionada de guarda-sóis),
essas pessoas
(orgulhoso Homo virtualis pós-moderno)
já não conhecem o que seja
humano de verdade.

Texto: Eduardo Trindade
Fotografia: Charles Chaplin em
Tempos Modernos

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Uma noite com Paul McCartney

Qual a ultima vez em que fizeste algo pela primeira vez? Eis talvez minha pergunta preferida. Não que se deva evitar a rotina a todo custo, mas muitas vezes é saindo da rotina que se degusta a vida, incluindo a própria rotina.
Pois ontem, primeira e única noite, eu assisti ao espetáculo de Paul McCartney em Porto Alegre.
Muita gente dirá que fui um privilegiado. Exagero de fã? Ora sim, depois desta noite, não tenho duvida de que estar lá foi mesmo um privilégio. Então, deem licença a este paperback writer virtual para contar a sua história...
Comecemos pelos meus antecedentes. Modestos. Não nasci numa família particularmente beatlemaníaca. Lá em casa, ouvia-se Beatles com moderação. Na adolescência, comecei a me interessar mais, seguindo meu estilo (irremediavelmente nostálgico) de ter saudades até do que não vivi. Ouvia as músicas, lia as histórias (curioso que sempre fui), sem exageros. Mesmo assim, quem me conhece há mais tempo já me ouvia dizer que, pouco afeito aos megashows, de todos os artistas possíveis, se havia um que eu gostaria de ver, este artista seria Paul McCartney.
Falava isso como um desejo distante até o dia em que a possibilidade se tornou real com o anúncio da vinda dele para o Brasil, e mais que isso, para Porto Alegre.
Não vou detalhar a expectativa até conseguir os ingressos, nem a espera na fila, nem outras histórias que, sozinhas, já renderiam boas crônicas. Tudo pré-histórias a partir do momento em que Sir Paul subiu ao palco.
Não se trata apenas de uma veneração fanática, mas da personificação de momentos que aquelas músicas simbolizam, daí a força que McCartney tem ainda hoje. Verdade que foi uma noite com direito a todo tipo de fãs exaltados. O que chega a ser curioso. Quem vê as imagens das meninas histéricas na década de 1960 pode não se espantar de que as filhas e netas daquelas meninas sigam tendo a mesma exaltação adolescente... mas pelo mesmo ídolo? Um grupo de gurias atrás de mim dava um espetáculo à parte de beatlemania, cantando, exaltando-se, gritando — Lindo, lindo! Ah, não acredito, não acredito, ele está ali, estamos vendo ele! — Histeria não por um ídolo teen, mas por um senhor de quase 70 anos.
E também o orgulho da terra, presente em qualquer canto do planeta e particularmente exaltado nos arredores do Guaíba. Cheguei à conclusão de que eu não trocaria o palco do Gigante da Beira-Rio sequer por outro em Liverpool. Lá o beatle estaria em casa, mas aqui eu é que estava em casa, éramos os anfitriões. E não vou disfarçar a alegre surpresa de ouvir Paul McCartney falando um português extremamente fluido para um súdito da rainha. Mais do que isso: se já tinha conquistado o publico bem antes de arriscar um "bah, tchê!" e de elogiar a plateia com sucessivos "trilegal", beirou o inacreditável ao cantar junto conosco "Ah, eu sou gaúcho!" (para os de fora, esclareço que se trata da versão local de " Ah, eu tô maluco!", bastante cantada nos estádios porto-alegrenses). Neste ponto, Paul se juntou ao Papa João Paulo II, ainda hoje lembrado por tomar chimarrão e cantar "Ucho, ucho, ucho, o papa e gaúcho". Sim, temos um orgulho um tanto provinciano, porém encantador (modéstia à parte). O que seria do todo se não fosse cada uma das particularidades que lhe dá brilho?
Não achei que fosse chegar ao ponto de verter lágrimas, mas bastaram os primeiros acordes de Hey Jude, música que toquei inúmeras vezes em meu tempo de pianista, para que eu sentisse os olhos úmidos. Sou um grande chorão. Não o único: à minha direita, outro marmanjo estava aos prantos. As meninas atrás de mim... Estas já choravam há muito tempo.
Melhor que tudo, porém, o sorriso das pessoas. Foi uma noite de sorrisos escancarados — de incredulidade, de satisfação, de sonho realizado — porque não havia dúvida de que cada pessoa ali tinha uma história particular envolvendo aquelas canções, e ouvi-las da maneira que ouvimos ontem vai muito além de gostar das músicas, de Paul ou dos Beatles; é como tocar com os dedos em parte do imaginário coletivo e individual, e sentir, de uma maneira quase boba, que aquelas canções ouvidas desde a infância despertam sensações e lembranças, dão vida a momentos que não é preciso explicar a ninguém.
Quando Paul anunciou, em português límpido, que tocaria uma música composta em homenagem a “minha gatinha Linda” e a dedicaria aos casais de namorados presentes... Verdade que, nesta hora, faltou alguém comigo a quem abraçar. Mas enquanto via minha mãe, que me acompanhou até ali com a felicidade estampada no rosto, eu tinha certeza de que aquela noite única valia a pena.
É por toda esta carga emotiva que o espetáculo de ontem foi inesquecível. O mundo pode produzir outros músicos excelentes e outras canções geniais, mas dificilmente algum conseguirá ter tanta ligação com a história particular de tanta gente: não uma ou duas, mas dezenas de músicas marcantes, esta por lembrar um filme, aquela, um beijo, a outra, um verão na praia, outra ainda, os domingos em família... Posso dizer, sem medo do exagero, que foi o show da minha vida. E quem estava lá, depois da noite de ontem, nunca mais ouvirá uma canção dos Beatles da mesma maneira.

Eduardo Trindade

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Há vaga

No choro compulsivo
da criança
do andar de cima
descubro
o quanto anda
vazio
o meu apartamento.










versos e fotografia por Eduardo Trindade