segunda-feira, 8 de março de 2010

Maternidade

Renovar os sonhos
que movem a roda do mundo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Piano

Tudo quanto espero agora é um grito.
O rasgo pungente de um choro
desadormecido na hora errada.
Calma, mãezinha, já vai passar.
Chora, criança, que o sono já vem.
Tudo que chove agora é incerto, é frio e vento.
Tudo que tento não me satisfaz agora.
Sendo redondo o mundo, todos os caminhos
levam ao mesmo caminho.
Tudo que é inverno agora
é o mais interno de mim.
Que bem me faria agora a indiferença,
a suave limpidez da voz de uma criança
atravessando o primeiro movimento
de uma sonata ao luar.

por Eduardo Trindade

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Desassossego

Fantasmas assombram a casa.
O vento ruge na varanda,
Cortinas dançam nos batentes.

É noite.

Silvos de outro mundo nas frestas,
Sombras percorrendo as paredes,
No peito uma sensação de não-sei-quê.

E o sono não vem.

Sonha? Dorme? Desperta?
Exausta a alma busca refúgio:
Voar, quase pensar, já não sentir.


por Eduardo Trindade

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Do viver impreciso

Amo o que me instiga. Se um livro me ameaçasse com sabedoria infinita, eu largaria o livro. Se me dessem a felicidade eterna, em busca de que eu correria todos os meus dias? Se me oferecesses um carinho inesgotável, eu o trocaria pela aventura de te reconquistar todos os dias. Solto tua mão para ver até onde vais, até onde vou, e fecho os olhos para adivinhar o gosto que terá nosso próximo beijo.



Texto e fotografia por Eduardo Trindade

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Andarilho


Construo estradas
com a poeira de meus sapatos
esquecido
do velho sonho da casa própria.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A virada

De repente, já é 2010. Admito que não participei com muito entusiasmo das comemorações que habitualmente cercam a virada do ano. Não que eu não tivesse nada para comemorar. Parece apenas que, mais do que em outros anos, eu não estava disposto a eleger, de maneira um tanto arbitrária, a noite de 31 de dezembro como símbolo quase mágico de que tudo vai melhorar instantaneamente. E, de qualquer maneira, nunca tive o costume de entrar madrugada adentro em festas de Ano Novo.
Certo, podem me chamar de antipático. Só digo em minha defesa que eu estava cansado, simplesmente. Assim como as pessoas anseiam por um momento de renovação, de passar a vida a limpo, de uma catarse coletiva em que é permitido esquecer os problemas e acreditar que amanhã será diferente, eu tive vontade de inovar – fugindo disto tudo.
E nem cheguei propriamente a fugir. Estive em Copacabana assistindo à queima dos fogos, estourei uma garrafa de espumante, abracei quem me abraçou. Até que me comportei bem, não? Só minha cabeça é que estava distante, pensando na minha cama, desejando ir para casa (e intimamente feliz por não ter de trabalhar no dia seguinte).
Há algum tempo, a gente se dava conta da virada ao longo dos primeiros dias do ano, preenchendo seguidos cheques com a data errada até se acostumar à mudança. Hoje temos cartões de crédito e de débito: o meio eletrônico nos roubou aquele processo manual de erros e acertos em que nos acostumávamos a escrever a data do novo ano. Em compensação, ainda temos agendas. Cumpri hoje meu ritual de passagem: transcrevi na agenda de 2010, novinha em folha, os meus compromissos para o ano que está começando.
Este ato de escrever na agenda nova é um pouco como iniciar um caderno na época do colégio. Eu tinha muita pena de gastar algo tão brilhante, ainda cheirando a loja... E me esforçava por caprichar na letra e na organização, embora fosse relaxando ao longo do ano. Sempre tive este apego um tanto sem sentido às coisas novas, um certo medo de vir a gastá-las. E nunca adiantou pensar que os objetos servem, mesmo, para serem usados. Dá-me pena ver que as coisas, por mais cuidado que se tenha com elas, vão perdendo o viço.
É um pouco o que acontece com o ano: este 2009, tão festejado há não muito tempo, vai-se embora sem que as pessoas demonstrem saudades. E agora, chegada a primeira segunda-feira de 2010, ocorre o inevitável: o ano que era novinho em folha aos poucos vai se amarelando de realidade e ganha as primeiras rasuras. Quem sentirá o mesmo apego por ele depois de perceber orelhas nas bordas e rasgos em algumas páginas? Talvez apenas aqueles que souberem sorrir ao identificar, num dos borrões, a caligrafia irônica de Mario Quintana: A Esperança é um urubu pintado de verde.

Esta crônica foi publicada n'O Globo de 04/01/2010. Mas, talvez para criar polêmica, o título foi alterado sem o meu consentimento! Por que será que tenho tanto azar com editores e revisores?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Túnel do Tempo


...E lá estava o menino,
sozinho, sentado na grama,
lançando ao seu redor
barquinhos de papel
sem saber que lançava
garrafas com mensagens cifradas
ao homem que ainda seria.


Texto e fotografia por Eduardo Trindade. Os barquinhos são parte de um presente oferecido pela Cris, amiga querida que tem o dom de transformar gestos em poesia.
E que em 2010 saibamos lançar mensagens bonitas e ler aquelas que nos trouxer o mar...

sábado, 19 de dezembro de 2009

"Não te quero mais"

Pratiquei durante dias,
horas a fio
em frente ao espelho
para não titubear
quando chegasse o momento:

nós dois
cara a cara
e, em vez da frase ensaiada,
sucumbo novamente
aos teus beijos magnéticos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nós e as palavras

Como você costuma falar?
Ou como tu costumas falar?
A língua, bem sabemos, é um elemento importante da afirmação cultural de um povo. E, visto que a cultura nunca é algo homogêneo, mas sim algo vivo e cambiante com o tempo e o lugar, também não devemos esperar que a língua seja sempre a mesma. Não preciso sequer falar das diferenças entre o português brasileiro e o português de Portugal (ou da África, da Índia, da China): os exemplos estão muito mais próximos de nós. Sim, temos marcantes diferenças entre estados e inclusive dentro do mesmo estado. Temos mais: cada indivíduo tem a sua vivência e o seu ponto de vista, que se manifestam, naturalmente, no seu linguajar: o sotaque, as gírias, a escolha dos vocábulos mais adequados a cada situação.
Nem mesmo um único indivíduo é homogêneo: não é verdade que assumimos tons e palavras diferentes dependendo do interlocutor e do meio? Ou será que alguém aí usa exatamente a mesma linguagem para falar tanto com o chefe quanto com a esposa ou namorada, tanto ao telefone quanto por escrito? (E nem preciso citar os operadores de telemárquetim, que são um caso à parte.)
Cada uma dessas nuances da linguagem se presta a uma mensagem que desejamos passar – ora mais formal, ora mais descontraída, ora mais ou menos íntima.
E a quem cabe julgar se a linguagem é ou não adequada? Sendo um sujeito pacifista, não defendo a prisão perpétua ou a cadeira elétrica para quem tem desleixo com a língua, nem mesmo para os operadores de telemárquetim que abusam do gerúndio. Mas o julgamento, em cada situação, é inerente à sociedade, tão natural quanto o julgamento (ainda que implícito) de quem se veste de maneira inadequada ou quem descuida da etiqueta à mesa. Não digo que tal seja ou não adequado; o fato é que acontece o tempo todo e seria tolice ignorá-lo.
A comparação é interessante: assim como costumamos nos vestir de modo diferente para irmos à praia ou a uma festa, também há palavras que são adequadas num meio e não em outro. Alguém que conversasse comigo com apurado rigor gramatical causaria estranheza. Mas um texto com pretensões literárias onde ocorressem sucessivos deslizes ortográficos também soaria mal.
Notem que, num caso e noutro, a linguagem pode ser subvertida para provocar uma reação do interlocutor: não foi à toa que escrevi telemárquetim no lugar de telemarketing. Mas assumo toda a responsabilidade pelo neologismo deliberado.
Ao me mudar de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, ficaram escancaradas algumas diferenças de linguagem. Sobretudo na escolha dos pronomes – meu interlocutor é tu, enquanto que a maioria à minha volta conversa com você. Alguns conterrâneos meus, na mesma situação, acabaram adotando a terceira pessoa. Eu, talvez por birra, aferrei-me ainda mais ao meu singelo tu.
O que não deixa de causar reações, das quais procuro ter consciência (como no caso de telemárquetim). Acontece que, recentemente, um de meus contos foi premiado em um concurso e tive a satisfação de vê-lo integrando uma antologia. Pois, abrindo o livro, descobri que o revisor tinha alterado o texto sem me consultar, transladando-o da segunda pessoa (tu, teu) à terceira (você, seu). Se fosse apenas uma questão de rigor gramatical, eu não faria tanta questão (ambas as alternativas são igualmente corretas, desde que internamente coerentes). Mas a escolha dos pronomes não é aleatória: o emprego de uma conjugação menos comum (tu vais, tu queres), muito mais que uma afirmação regional, é um recurso que eu gosto de usar para criar um clima de fábula, de sutil desligamento da realidade, como era o caso. O que seria de nós se todos os nossos sonhos tivessem de ser, forçosamente, sonhados com um sotaque padrão de telenovela?

texto e fotografia por Eduardo Trindade

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Trapezista

Sentia a atração do abismo.
Dedicado ao trapézio,
dispensava redes de segurança.
Seu mundo era um mundo,
seu sonho era um sonho
de glória e de aplausos.
Vivia de aspirar o vento
de suor frio e respirações suspensas.
Suspendia-se no ar.
Sustentava-se no infinito
de uma fantasia particular
com ares de bailado.
Ousava. Não sabia o que arriscava
até torcer o pescoço
(não havia redes de segurança)
atrás de um rabo-de-saia.



Lembrete: sexta-feira tem mais um texto meu nos Autores S/A.