Porque eu desisti de responder às tuas cartas pensas que desisti de ti. Mas, quando eu respondia, não nos entendíamos: afinidade de corações separados por diferenças linguísticas. E diziam que falávamos a mesma língua, e dizíamos que éramos poliglotas.
Minhas respostas, se ainda houvesse respostas, não seriam mais em papel de carta. Minhas respostas, se as escrevesse... Letras pequenas, linhas apertadas no branco do papel almaço. Papel nunca enviado, destinado a morrer no fundo da gaveta. Esqueces que me coube o papel mais difícil, o de negar o que sinto. De ser falso, canalha e desprezível para que vivas sem mim. Mas eu não contava que, em tua fraqueza, fosses tão forte ao agarrar o que te restava, um esqueleto ressecado do que fui para ti.
Não temos mais fotos, não te mando mais postais, não compartilhamos aromas, mas tuas cartas continuam a chegar e eu não sei o que fazer com elas. Os envelopes que não tenho coragem de abrir vão se acumulando, a gaveta é uma devoradora de futuros. Os nossos futuros não aconteceram. A casa, os filhos, as mãos dadas no parque. Não suporto mais pensar na igreja e no teu vestido branco mas tenho certeza de que as cartas falam disso. Disso e de tua mãe com quem nunca mais discuti, sei que agora sonhas com uma briga daquelas entre eu e ela.
Outro dia encontrei teu doce preferido na confeitaria e provei-o relembrando nossa música, mas então fechei a cara quando me lembrei de teus bilhetes, os bilhetes que não li, sei que ainda falam de nossas músicas.
A diferença entre nós é que sempre foste mais forte parecendo fraca, eu sempre fui fraco embora parecesse forte. Ainda hoje não acreditarias: sou eu que não te mereço, e pensas que não me mereces. Teu papel, eternamente, escreves; entretanto, finjo ignorar. Meu papel é frio, sou um canalha para que voltes a viver, no entanto ardo.

Calei-me durante muito tempo

Alguém dirá
