sexta-feira, 29 de junho de 2012

"Please, Mr. Postman"

Porque eu desisti de responder às tuas cartas pensas que desisti de ti. Mas, quando eu respondia, não nos entendíamos: afinidade de corações separados por diferenças linguísticas. E diziam que falávamos a mesma língua, e dizíamos que éramos poliglotas.
Minhas respostas, se ainda houvesse respostas, não seriam mais em papel de carta. Minhas respostas, se as escrevesse... Letras pequenas, linhas apertadas no branco do papel almaço. Papel nunca enviado, destinado a morrer no fundo da gaveta. Esqueces que me coube o papel mais difícil, o de negar o que sinto. De ser falso, canalha e desprezível para que vivas sem mim. Mas eu não contava que, em tua fraqueza, fosses tão forte ao agarrar o que te restava, um esqueleto ressecado do que fui para ti.
Não temos mais fotos, não te mando mais postais, não compartilhamos aromas, mas tuas cartas continuam a chegar e eu não sei o que fazer com elas. Os envelopes que não tenho coragem de abrir vão se acumulando, a gaveta é uma devoradora de futuros. Os nossos futuros não aconteceram. A casa, os filhos, as mãos dadas no parque. Não suporto mais pensar na igreja e no teu vestido branco mas tenho certeza de que as cartas falam disso. Disso e de tua mãe com quem nunca mais discuti, sei que agora sonhas com uma briga daquelas entre eu e ela.
Outro dia encontrei teu doce preferido na confeitaria e provei-o relembrando nossa música, mas então fechei a cara quando me lembrei de teus bilhetes, os bilhetes que não li, sei que ainda falam de nossas músicas.
A diferença entre nós é que sempre foste mais forte parecendo fraca, eu sempre fui fraco embora parecesse forte. Ainda hoje não acreditarias: sou eu que não te mereço, e pensas que não me mereces. Teu papel, eternamente, escreves; entretanto, finjo ignorar. Meu papel é frio, sou um canalha para que voltes a viver, no entanto ardo.

sábado, 2 de junho de 2012

Como Ana resolve palavras-cruzadas



Poema de Brana Petrović
traduzido do sérvio por Eduardo Trindade
Quais são suas intenções
quando todos os outros dormem
e apenas eu observo?

Tem Ana algum motivo
para assim tão bela dormir?

Respeito os poetas,
mas ressalvo:
ninguém pode
descrever a aparência
de sua pele escura.

Quando Ana chora
(eu não minto)
é mais bonita
que as frutas!
Que a chuva!
Que… caranguejos grelhados!
Que… o que quiserem!
Que pássaros a galope!
 E não é só uma frase de efeito
para enganar a Europa toda!

E quando se despe!
Livre e amaldiçoado observo
(e não sei como sobrevivo)
o grande milagre da luz!
Eu juro:
se te pudesse aquecer,
Ana, eu queimaria todos os teus ossos!

Quando desenha um barco! Quando semeia sevada!
Quando declara guerra! Quando ri!
Quando alimenta mariscos! Quando se resfria ao relento!
Quando lê uma bússola! Quando compra um novo vestido!
Quando bebe cerveja! Quando aparece do nada!
Quando idolatra líderes sindicais!

Quando é minha mão direita!
Quando é uma inscrição grega!
Quando sonha com flores!
Quando não quer!

A lembrança de uma criança inconcebível
sempre poderá substituir o fogo:
porque as nuvens são verdes para mim, tão verdes!
Tão intensas!

E quando as vozes se combinam!
Ó Deus,
minha cabeça se incendeia!

Eu posso nos lábios dela unir o mar e as flores!
Posso no país dela comandar a chuva!
Posso sob a janela dela imitar o Danúbio,
ou alguns vulcões,
posso jurar
por tudo o que tenho,
e não tenho,
que o mundo existe por causa de Ana.

Quais são suas intenções
Quando todos os outros dormem
E apenas eu observo?

Tem Ana algum motivo
para ser tão bela quando dorme?

As flores, as serpentes, os ingleses,
todos já sabem:
ela ao beijar
cura todas as doenças!
Mas eu mais mais mais amo
quando ela liga os pontos,
quando resolve palavras-cruzadas.

Ela faz isso como se brincasse!
Parece que cria o mundo!
Qual o mais novo cavalo de Virgílio:
com uma mão segura o mundo,
com a outra o ilumina!
Procura, por exemplo, uma palavra
para beber como água,
para sussurrar,
subir,
voar,
e dormir.
Uma palavra que não é como as outras:
uma palavra para resolver palavras-cruzadas!

Então se produz o pequeno drama:
a água banha o litoral:
Ana, nua,
na palma da minha mão,
ó sonhada eternidade!
(Eu poderia apenas cuidar dela enquanto convalesce
ou dorme.)
Eeentretanto é tttão
perigoooso
ooo embbbalo
as pppppalavras
as palavras ssssse
estão resolvendo!

Quais são suas intenções
Quando todos os outros dormem
E apenas eu observo?

Por que enfim não se cobre quando dorme?


Nota:
Este é o primeiro texto de outra pessoa que publico aqui. Por que o publico? Primeiro porque, embora o autor seja o sérvio Brana Petrović (1937-2002), a versão em português é minha e, como bem sabe o meu amigo Arthura tradução de um poema pode ser obra tão grandiosa quando a criação de um poema. Este não é o caso (a versão original é bem mais musical, e é por isso que ela aparece lá em cima), mas ainda assim a divulgação vale a pena. Porque o poema é bonito, porque ele me foi apresentado por uma amiga sérvia que também me ajudou com a tradução (hvala na pomoći, Ana!), porque nós brasileiros (e lusófonos em geral) merecemos conhecer um pouco mais dessa cultura que é a dos Bálcãs e porque não encontrei na Internet versão alguma além da original. Espero que tenham gostado.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quarto minguante

Hoje é dia de lua esguia no céu.
Falta um pedaço aqui dentro.

A mesa está posta, a noite pousada,
teu jogo de talheres e o prato preferido,
mas sou eu que me sirvo.

É dia de lua esguia no céu,
até a rua parou para ver
e o escuro fez silêncio lá fora.

Leio um livro. Penso num disco,
como são tristes as valsas
bailadas sozinhas na noite vazia.

É noite de lua esguia no céu,
procuro o pedaço de mim que tem o teu nome.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Dos ponteiros

O relógio da sala bateu: duas horas. Quando era criança, havia na casa dos avós um grande relógio de armário, de pêndulo, e eu gostava de ficar vigiando a aparição pomposa do cuco. Mas não era uma obsessão como a de hoje.
Agora foi a vez do relógio de pulso, aqui do lado da cama. Cinquenta e oito, cinquenta e nove, duas horas. O relógio de pulso sobre o bidê - lá onde nasci chamávamos de bidê a este móvel que, aqui em terras cariocas, chamam de criado-mudo. Mas as palavras, sejam quais forem, não ajudam a madrugada a passar.
Duas da madrugada e ainda há algum ruído na rua, só aqui dentro é que faz silêncio. Não converso. Escrevo para as paredes, queria escrever nas paredes. Não tenho coragem para as coisas mais inofensivas. Quem vai reclamar do quarto rabiscado num universo que é só meu? O instinto que forjei quando criança - guri, para de escrever nas paredes! - ainda é muito forte. Instinto é uma coisa forte.
Eu é que sou fraco. Por isso estou sozinho e nem sequer as paredes me ouvem, por isso minha voz e meus punhos não conseguem dobrar a noite. Não tenho mais pressa. Duas e sete. Sou um maníaco. Melhor teria sido colecionar selos. Volto a lembrar do relógio dos avós. Pensando bem, é ridículo que o tempo seja marcado por um cuco que não envelhece. Ridículo ou cruel.
Passou um caminhão lá fora. Incrível como, aqui do sexto andar, posso acompanhar toda a vida da madrugada. Anteontem foi um casal que resolveu brigar em frente ao prédio. Não sei bem o que levou à briga, o que o rapaz terá dito ou feito, ou deixado de fazer; mas ouvi a discussão, os gritos, e imaginei a mulher indo sozinha nalguma direção e ele parado, as mãos no bolso. Por mais que a moça tenha partido sem o namorado, não saberá o que é solidão como a desse quarto, noite após noite.
Tenho uma parede de pregos nus. Arranquei os quadros, os porta-retratos, não me conformava em ser observado na minha intimidade. Nunca vi um filme de terror em que os retratos mexessem os olhos; os olhos dos retratos só se mexem nas caricaturas dos filmes de terror. Talvez tenha sido por isso que eu arranquei os quadros: medo de minha vida se transformar numa caricatura.
Caminho, abro a geladeira, procuro a garrafa d'água. No fundo, o que eu queria é encontrá-la vazia para assim completar a metáfora desta noite, mas a garrafa está pela metade. Sirvo um copo, bebo. Não bebo no bico da garrafa - outra vez o maldito instinto. O relógio da cozinha marca duas e quinze.
Penso num banho. Dispo-me, o pequeno prazer de largar as roupas pelo chão (aqui não chegou o instinto), ligo o chuveiro. Uma ducha fria, só a água a escorrer. Sempre gostei do barulho da água caindo, é pena que eu nunca mais tenha tomado banho de chuva.
Agarro a toalha, deixo o banheiro. Duas e trinta e três. Trinta e três, trinta e três, trinta e três. Nunca ergui bandeira nem tive pneumonia, eu devia ter tomado mais banhos de chuva.
Não sou o único a não dormir. Ouço barulho, em algum andar, alguém chamou o elevador. Autômato, olho para a porta.
Costumo deixar a porta destrancada, mas nunca me senti tão preso. O anjo exterminador. Não há grades. Não há grades como as que acorrentam a alma. Duas e trinta e oito. Parece que começou a chover. A janela está aberta, sinto um vento suave, cheiro de terra molhada, procuro nuvens. Quero voar.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A outra face do fruto

(Poema em preto e branco.)

No princípio era o verbo
e era bom.
Como foi que transformamos
nossa poesia
em pugilismo verbal?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Meio-tom

Calei-me durante muito tempo
enquanto falavas,
enquanto calavas
e quando extraías da minha boca
as palavras que eu não queria querer.

Matei poemas
(abortos clandestinos)
e neguei canções
(rebentos desconhecidos pelo pai)

mas sei que lias em mim
o que não tinha sido dito.

Agora da tua metralhadora de palavras e pontapés, ácido e chocolate,
machucando quando quer amar,
entregando-se apaixonada quando quer distância,

tu que também não sabias o que querias,

de ti
agora
(mais uma vez)
eu quero a vida inteira.
por Eduardo Trindade

domingo, 4 de dezembro de 2011

Navio-Fantasma

Nuestro norte es el sur.
Torres García, artista uruguaio
Vaga, vela, remo, onda,
onde?
O sul é nosso norte.
Bússola quebrada,
maresia,
calmaria.

Este suor salgado de mar,
este mar banhado de dor,
este mundo sem história.
¡No pasarán!
O que foi já é passado.

Vaga, meu coração,
remo, vela,
tempestade,
este tempo
fora do tempo.

Pouso forçado, porto fechado,
a volta ao mundo
por não saber aportar.
Onda, vela,
volta ao meu mundo, coração,
a todo pano.
Eduardo Trindade

sábado, 29 de outubro de 2011

Travessia

Que o poema seja livre
como uma travessia de veleiro.

Que o travesseiro seja porto,
princípio e meio.

Mergulhemos na cama
como quem viaja.

Mudos ou loquazes:

qualquer suspiro é um mundo
para quem sonha.


Eduardo Trindade

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sabiá

Alguém dirá
“Não é de ti que tenho saudades,
mas do mundo que representas.”
Será dito
“Quem dera não mudasses,
eu permaneceria o mesmo.”
Há quem não admita a mudança
e mude sem perceber.
Está escrito
“Quem espera sempre alcança”,
mas podem tudo as palavras,
não as pessoas.
“Esperarei”,
e espera-se demais
ou espera-se de menos.
Na despedida:
“Eu te amarei para sempre.”
Sempre distante de quem se amou,
distante ainda mais de quem se julga amar,
há quem pense sem dizer
e há quem fale sem pensar.
Lá fora, há de cantar
um sabiá.

Eduardo Trindade

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Amar é fazer valer a pena

Chegará talvez um tempo em que parecerá tarde demais, então te buscarei num dicionário de palavras proibidas, num livro de vocábulos nunca ditos, numa biblioteca de sensações inéditas.
Tempo haverá em que não precisaremos de mais tempo para nos entendermos. Desprezaremos os idiomas. Não se tratará de aprender tua língua, apreenderei tua língua nos meus lábios, e tuas mãos estarão nas minhas, teu abraço estará no meu. Confundirei o meu e o teu numa palavra.
Nosso mundo será livre quando libertarmos nossas palavras, nossos corações serão livres quanto liberto também estiver nosso silêncio.
Chegará um tempo em que só nos restará ir além. Só nos restará fazer valer a pena.

Eduardo Trindade