quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quarto minguante

Hoje é dia de lua esguia no céu.
Falta um pedaço aqui dentro.

A mesa está posta, a noite pousada,
teu jogo de talheres e o prato preferido,
mas sou eu que me sirvo.

É dia de lua esguia no céu,
até a rua parou para ver
e o escuro fez silêncio lá fora.

Leio um livro. Penso num disco,
como são tristes as valsas
bailadas sozinhas na noite vazia.

É noite de lua esguia no céu,
procuro o pedaço de mim que tem o teu nome.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A outra face do fruto

(Poema em preto e branco.)

No princípio era o verbo
e era bom.
Como foi que transformamos
nossa poesia
em pugilismo verbal?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Meio-tom

Calei-me durante muito tempo
enquanto falavas,
enquanto calavas
e quando extraías da minha boca
as palavras que eu não queria querer.

Matei poemas
(abortos clandestinos)
e neguei canções
(rebentos desconhecidos pelo pai)

mas sei que lias em mim
o que não tinha sido dito.

Agora da tua metralhadora de palavras e pontapés, ácido e chocolate,
machucando quando quer amar,
entregando-se apaixonada quando quer distância,

tu que também não sabias o que querias,

de ti
agora
(mais uma vez)
eu quero a vida inteira.
por Eduardo Trindade

domingo, 4 de dezembro de 2011

Navio-Fantasma

Nuestro norte es el sur.
Torres García, artista uruguaio
Vaga, vela, remo, onda,
onde?
O sul é nosso norte.
Bússola quebrada,
maresia,
calmaria.

Este suor salgado de mar,
este mar banhado de dor,
este mundo sem história.
¡No pasarán!
O que foi já é passado.

Vaga, meu coração,
remo, vela,
tempestade,
este tempo
fora do tempo.

Pouso forçado, porto fechado,
a volta ao mundo
por não saber aportar.
Onda, vela,
volta ao meu mundo, coração,
a todo pano.
Eduardo Trindade

sábado, 29 de outubro de 2011

Travessia

Que o poema seja livre
como uma travessia de veleiro.

Que o travesseiro seja porto,
princípio e meio.

Mergulhemos na cama
como quem viaja.

Mudos ou loquazes:

qualquer suspiro é um mundo
para quem sonha.


Eduardo Trindade

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sabiá

Alguém dirá
“Não é de ti que tenho saudades,
mas do mundo que representas.”
Será dito
“Quem dera não mudasses,
eu permaneceria o mesmo.”
Há quem não admita a mudança
e mude sem perceber.
Está escrito
“Quem espera sempre alcança”,
mas podem tudo as palavras,
não as pessoas.
“Esperarei”,
e espera-se demais
ou espera-se de menos.
Na despedida:
“Eu te amarei para sempre.”
Sempre distante de quem se amou,
distante ainda mais de quem se julga amar,
há quem pense sem dizer
e há quem fale sem pensar.
Lá fora, há de cantar
um sabiá.

Eduardo Trindade

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Amar é fazer valer a pena

Chegará talvez um tempo em que parecerá tarde demais, então te buscarei num dicionário de palavras proibidas, num livro de vocábulos nunca ditos, numa biblioteca de sensações inéditas.
Tempo haverá em que não precisaremos de mais tempo para nos entendermos. Desprezaremos os idiomas. Não se tratará de aprender tua língua, apreenderei tua língua nos meus lábios, e tuas mãos estarão nas minhas, teu abraço estará no meu. Confundirei o meu e o teu numa palavra.
Nosso mundo será livre quando libertarmos nossas palavras, nossos corações serão livres quanto liberto também estiver nosso silêncio.
Chegará um tempo em que só nos restará ir além. Só nos restará fazer valer a pena.

Eduardo Trindade

sábado, 30 de julho de 2011

Enquanto lá fora

Enquanto esta chuva molhar as pedras da rua
ou este vento sacudir as bandeiras do varal
e varrer as folhas do nosso jacarandá
deixando sempre outras folhas de outras árvores,

enquanto o sol pintar de reflexos nosso dia
ou esta noite cobrir de saudade nossos olhos,

enquanto caminharem pacientemente as dunas da praia,
sutil ampulheta de vento e tempo e areia
a medir não sei o quê,

enquanto sentir um não-sei-o-quê
(e sei que vou senti-lo)

vou te dar todo o sentido

que não sei se é infinito
pois não sei medi-lo

mas que é o sentido

da pele eriçada, da respiração suspensa, do coração aos pulos.

Do abraço apertado e dos olhos fechados
enquanto a chuva, o vento, o tempo
passam lá fora.

sábado, 16 de julho de 2011

A quem cabe na palma da mão

Bazoguita.
Túti, chegaste há tanto tempo que os detalhes são imprecisos, chegaste bebê, eu era guri e o mundo era um mundo. Chamaram-te Túti, chamamos-te Túti, eu fui o único a insistir no acento em teu nome (paroxítona terminada em i), mas não importava tanto, não assinavas, tua assinatura era teu latido.
Durante uma vida foste nossa cachorrinha. Durante quatro lares foste nossa irmãzinha. Quatro casas, mais as temporadas em Capão da Canoa, quando corrias na praia mas tinhas medo do mar, mais a casa temporária da Glória, em que outra cachorrinha, a Bibi, vivia te importunando (lembras?), mais algumas outras em que fomos visitas, tu que estavas conosco, tu que eras da família.
Tu que cabias na palma da mão, tu te lembras de uma foto em que estás toda encolhidinha dentro de uma pantufa, a cabeça apenas para fora? Não cresceste muito, os da tua raça não crescem muito, continuaste cabendo num colo, num abraço. E não é preciso mais que a palma da mão para um carinho. Quando há carinho, o mundo cabe na palma da mão.
Cresceste com nosso irmão Tiago, lembras como ele era também pequeno, quase como tu? Lembras quando começamos a conversar contigo numa língua inventada, brincadeira de criança? Bazoguita, matuia, tutipum. Olhavas, nem sempre respondias, mas entendias. Era o nosso segredo.
Durante quantos churrascos fomos uma família. Quantas brincadeiras, escadas (sempre tive medo de que as escadas fizessem mal à tua coluna, tu que eras tão frágil). Passeios no Brique, idas ao parque.
Saí de casa e passamos a nos ver menos, nunca pudeste me visitar, mas com que alegria eu te visitava e com que alegria me recebias. Como gostavas do sofá, com que alegria me convidavas para sentar junto contigo, tu que deitavas no sofá com a cabeça sobre a minha perna e me obrigava a te pedir licença sempre que eu precisava me levantar. Uma vez apenas foste te despedir de mim no aeroporto e te expulsaram, o aeroporto parece que não é lugar para cachorros. Ficavas agitada quando me vias arrumar uma mala, temias as despedidas. Às vezes eu saía de madrugada para o aeroporto e te deixava dormindo, despedia-me em silêncio por não querer te acordar, mas como doía. Como dói não poder se despedir.
Então chegou o dia de hoje e foi tua vez de ir embora. Sim, como dói não poder se despedir. Espero que tenhas sido feliz, espero que tenhamos sido uma boa família.
Sejas feliz, é o que dizias a cada um de nós, é o que te dizíamos. Bazoguita.
É o nosso segredo.

sábado, 9 de julho de 2011

Vento



O vento frio do crepúsculo
fazia mover sem sentido
as sombras de antigas lembranças,

sobras estacionadas
na contramão do tempo.