quinta-feira, 2 de julho de 2009

Saber esperar

Hoje em dia, é difícil encontrar alguém que não tenha uma câmera fotográfica. Ou mais de uma. A fotografia está tão difundida que já não se pode mais falar sequer “as pessoas fotografam até com o telefone”; o mais adequado é “as pessoas fotografam pelo menos com o telefone”. E essa popularização da fotografia, que tem os seus méritos, às vezes assusta quando nos damos conta dela. Mais que um susto, porém, existe uma mudança de comportamento silenciosa correndo junto com tudo isso.
O registro de uma imagem, há poucos anos, começava com o ato de colocar o filme na máquina fotográfica. Ou melhor: começava quando se escolhia o filme, o que podia ser um dilema complicado. Eu, por exemplo, sou fascinado por fotografia em preto-e-branco. E para fazer uma fotografia assim era preciso colocar um filme especifico na máquina, o que significava que as próximas 36 imagens sairiam em preto-e-branco. Equipado para fotografar apenas preto-e-branco, eu ficava torcendo para que não surgisse nada muito colorido na minha frente...
Mas a mudança mais significativa foi, claro, quanto à revelação das imagens. As crianças, hoje, não devem sequer saber o que é revelar um filme fotográfico. No entanto, após tirar uma foto nós não tínhamos como saber se ela havia ficado boa. A iluminação, o enquadramento, o resultado só seria visto dia ou dias depois. E nada de retocar digitalmente a imagem para corrigir os defeitos. A foto é o que é.
A espera. Horas ou dias até se poder ver o resultado de uma foto. Quem nem sempre agradava pela imagem em si, é verdade, mas que se confundia com um outro valor muito significativo: a fotografia acompanhava a memória. Buscar as fotos recém reveladas era uma viagem que se prolongava além das férias, um fim-de-semana que se prolongava até segunda ou terça-feira. Quando começava a bater a saudade daquela pessoa ou daquele lugar, nesta hora é que a revelação das fotos ficava pronta, finalmente nos sentávamos para olhar tudo. Com os olhos cheios de lembranças.
Não temos mais isso. O ritual da foto se concentrou completamente no instante do clique e quase não há mistério a ser revelado posteriormente. E assim vamos desaprendendo a esperar.
Na escrita, um fenômeno parecido. Sou dos que ainda escrevem cartas. Adoro. Todo o lento ritual, a escolha do papel, o cuidado com a letra, a incorporação de algum desenho, cartão ou dobradura ao envelope. Um pequeno presente que se constrói. E, claro, a espera. Não é fascinante imaginar o instante em que a carta chega, trazendo mensagens, texturas, aromas? Como um livro novo, personalizado, gostoso de se folhear. Não nego a importância do e-mail. É minha ferramenta de trabalho e meu principal meio de comunicação com as pessoas que moram longe. É rápido e prático. Mas não pretendo substituir uma única de minhas cartas por uma dúzia de e-mails. Amigos meus, não deixem de me escrever cartas! E compreendam minha eventual ausência dos sistemas ultrainstantâneos de comunicação: eu poderia ficar preso em frente ao computador usando o MSN durante o tempo de uma carta, mas a comunicação não seria tão intensa quanto a que colocaríamos no papel.
Mas estamos numa época em que o até forno de microondas deixou de ser sinônimo de rapidez para ser mais lento que outros eletrodomésticos, estes sim com a agilidade que nos acostumamos a cobrar de nós mesmos. Um sorriso para a foto, mas depressa, por favor! Parece que já não teríamos tempo para rebobinar uma fita cassete, se isto ainda fosse necessário; que dirá tempo para escrever uma carta.

crônica e fotografia por Eduardo Trindade

14 comentários:

Neotenia disse...

Esse seu texto me faz refletir muito sobre como eram as coisas antes e recordo do significado que tinha ganhar uma foto!

Lembro que ganhar uma foto d euma amiga ou familiar representava um ato tão afetuoso... Eu tinha DIVERSAS fotos na minha carteira, nos meus álbuns... tão delícia!

Obrigada pela leitura... ADOREI!

Maggie disse...

É verdade essa emoção de esperar pelas fotos, lembro-me de isso acontecer com as fotografias das férias, era uma ansiedade e revia-as vezes sem conta.
Quanto às cartas, ainda hoje guardo todas as que recebi de amigos e familiares. São uma espécie de tesouros.
Confesso que já não escrevo cartas, escrevo ainda às vezes postais, mas as cartas perderam para o e-mail (que às vezes são autênticas cartas em formato digital).

Mais uma vez parabéns pelo teu texto.

Abraço transatlântico!

Paula disse...

Hoje em dia tudo é rápido e rápido também perdemos tantas coisas importantes. Coisas pequenas mas muito importantes, como o sentar e olhar as fotos de uma viagem como referiste. Recordar, sorrir, falar sobre...
Gostei muito do teu texto, como sempre faz-nos reflectir sobre os nossos actos, sobre a nossa sociedade...
Abraços

Victor Gil disse...

Era o que se chamava: Olha o passarinho.
Pois é hoje a fotografia, nasce na palma da mão.
Bom fim de semana
Um abraço
Victor Gil

Ariane Rodrigues disse...

Infelizmente eu só tenho um interlocutor para minhas cartas atualmente. Mas é muito especial, 2 ou 3 cartas ao ano recheadas de muitas emoções. Falaste muito bem sobre o processo que envolve tanto a atividade fotográfica quanto a escrita. Até mais querido!

Rouxinol disse...

"Não é fascinante imaginar o instante em que a carta chega, trazendo mensagens, texturas, aromas?"

E como esse fascínio se completa quando somos presenteados com um relato saboroso do momento de abertura do envelope! É como viver duas vezes o prazer de pensar e construir cada detalhe. É ter a certeza de que os sorrisos semeados na correspondência foram todos colhidos, um a um.

Camilíssima disse...

As cartas e as fotografias exercem fascínio sobre as pessoas, talvez por terem um quê de eternidade... Mesmo quando traziam alguma recordação com a qual não queria mais conviver, nada substituía o prazer de rasgá-las! Ótimo texto, compartilhamos o mesmo pensamento. Ainda sou uma apaixonada pelas cartas, tanto que vez ou outra escrevo para mim mesma.
Abraços!!!

Raquel disse...

Tem razão Edu, todo o ritual e p fascinio da espera pelas fotos, cartas estão sumindo.Antes uma foto era algo tão especial, registro de uma coisa super importante, infelizmente hoje até mesmo a importancia do momento muitas vezes se perde. =/
gostei muito da foto tambem, lembrei de um dia desses quando era criança e adorava ficar rodando a coisinha dos bombons n.n

Juliana disse...

ah, andei com um nostalgia sobre isso qndo digitalizei umas ftos antigas...
"a gente era feliz e não sabia..."
e faz tanto tempo q n escrevo cartas, to atrofiando essa coisa de escrever com mão, gosto muito mais de digitar... rs

ótima cronica, querido
beijo

Magna Santos disse...

É verdade, Eduardo, não há nada que substitua uma carta. Mas, na verdade, cada comunicação tem seu valor e sua circunstância.
Fiquei lembrando agora de quantas vezes ía à caixinha do correio de casa atrás de cartas. Quando chegavam...nossa, que alegria!
Valeu pela lembrança!
Beijos.
Magna

Äмbзr Gïrℓ ⅞ disse...

nossa, o charme das coisas estão indo pelo ralo.

voce resgatou muito esse charme nesse texto, parabens.

Blog Suicide Virgin

ah, eu ainda tenho um a camera analogica. eu gosto de usa-la de vez em quando. pena a revelação ser cara. (pelo menos eu acho cara). bjs.

Stefânia disse...

"Um sorriso para a foto, mas depressa, por favor!"

seu texto me veio a calhar justo agora que penso em não ter tanta pressa.

as vezes deixo os e-mails pessoais esperarem um pouco para esquentarem um pouco mais. as vezes escrevo cartas, escaneio, e as envio por e-mail. a intensidade é a mesma e a pessoa pode esperar para lê-la como uma carta. tentativas...

Marta disse...

e sabes escrever e escrevê-las tão bem, meu amigo :)

um beijo

Ana disse...

Pois é, desaprendemos a esperar ... como eram bons os tempos da espera sem angústia, sem tormentos... hj vivemos em tamanha correria, que esperar pelo final do dia já parece uma eternidade...

Cartas e fotografias... que saudades!!!