segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ausência

A escova de dentes
dorme solitária
sobre a pia do banheiro.

Ninguém mais reclama
do tubo premido ao meio.

O espelho se cala.


Poema que recebeu menção honrosa no Concurso Nacional Helena Kolody 2009.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os espaciais

Estes que procuram metodicamente, loucamente, desesperadamente provar que não estamos sós no universo... Admiro a sua persistência e compartilho a sua curiosidade. Só duvido um pouco da sua convicção de que a existência de uma outra raça mudaria a nossa vida.
Qualquer dia, ainda vão descobrir, nalguma galáxia improvável, uma grande colônia de extraterrestres: não humanoides, mas insetos. E ficarão perplexos ao se depararem com a obstinada indiferença daquelas outras formigas interplanetárias, eternamente ocupadas consigo mesmas, às nossas mensagens em radiofrequência.

por Eduardo Trindade

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Vento no rosto

Mão de criança segurando o balão,
lindo balão, lindo sorriso
com que levas teu colorido globo.
Flanando, passeando, sonhando,
cada vez mais longe, cada vez mais alto...
O balão se soltou, menino!
E lá vai, pequenino,
no imenso céu que o abraça.
Mão de criança na minha:
vamos de mãos dadas, menino,
até que, numa esquina,
eu talvez piscarei, de repente,
e te soltarás, voando, voando
no imenso mundo que tens pela frente.



versos e pintura por Eduardo Trindade

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Mapas

A humanidade pode ser dividida em dois grupos: os que, lendo um mapa, preferem deixar o norte no topo e os que gostam de girar o mapa para alinhá-lo com a posição real dos pontos cardeais.
Pesquisadores sérios já se propuseram a explicar esta diferença de comportamento. Dizem que, em geral, são as mulheres que se sentem mais desconfortáveis ao ler um mapa e as que mais fazem questão de girá-lo até alinhar o norte do papel com o norte que têm à sua frente. Os homens, neste sentido, teriam melhor senso de orientação espacial (embora, por outro lado, perderiam para as mulheres na orientação em espaços fechados, quando procuram algo dentro de casa, por exemplo).
De maneira geral, eu me encaixo bem nesta média. Gosto de mapas, e não preciso girá-los de ponta-cabeça quando procuro uma rua. Mais do que gostar de mapas, gosto de colocar meu senso de orientação à prova quando chego exploro uma cidade nova. Como viajante, um dos troféus particulares que guardo foi ter desembarcado em Pequim e, munido apenas de um mapa (em mandarim, naturalmente), ter achado o caminho da pousada sem titubear nem precisar pedir informações – mais do que isso, no trajeto de metrô, conheci um chinês do interior e ajudei-o a achar seu próprio caminho. É verdade que também há situações em que não sou tão eficiente; mas, mesmo assim, não me preocupo, pois perder-se pode ser um dos grandes prazeres de uma viagem. Tanto que me incomodam um pouco as pessoas que fazem sempre questão de saber exatamente para onde estão indo.
Tudo somado, ainda não conclui se tenho ou não um bom grau de orientação – e de atenção. Eu já errei até mesmo o caminho de casa: assim que me mudei, ia passando em frente ao meu prédio sem dar por ele, e teria seguido adiante se outra pessoa não tivesse me alertado. Também já arranquei os cabelos, dentro de casa, procurando desesperadamente os óculos que estavam na ponta do nariz. Noutra ocasião, levei um bom tempo até me dar conta de que o que estava fazendo meus olhos embaçarem era o fato de que eu, esquecido de que já havia posto lentes de contato, tentava colocar os óculos por cima delas. Em compensação, costumo ser uma pessoa bastante confiável quando me pedem informação na rua, mesmo numa cidade que não seja a minha.
E quando não conheço o caminho? Recorro aos mapas, sempre que possível, e isto tem sido cada vez mais fácil com a popularização de serviços como o Google Earth. Outro dia, quis pesquisar a localização exata de determinada rua do bairro carioca de Botafogo. O programa me mostrou a rua, entre várias das ruas principais do bairro que eu conheço bem, porém a disposição do mapa era estranhamente incompreensível para mim. Após uns minutos quebrando a cabeça, descobri que aquele não era o mapa que eu buscava: no município vizinho de Nova Iguaçu também há um bairro chamado Botafogo e, mais do que isso, as ruas de lá têm o mesmo nome das ruas de cá. Uma homenagem? Não sei. Mas imagino que carteiros e entregadores devam sofrer com a inusitada coincidência e que os enganos não devam ser incomuns. Pudera, se um desavisado procurar seu caminho no bairro errado e homônimo, não adiantará virar e revirar o mapa...

crônica e fotografia por Eduardo Trindade

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

De passagem

Tanta gente
nestas composições de metrô,
nestas rodoviárias do interior,
nestes aeroportos de conexão,
tanta gente, meu Deus,
que eu nunca voltarei a ver.

Um senhor de terno preocupado com a hora,
uma mulher de circo gritando com o filho,
um velhinho mirrado com medo de viajar,
uma moça aérea que lê um livro de poesia...

Tanta gente, meu Deus!
Se eu pudesse saber
o que pensava a moça de poesia...
O que terá achado do livro,
o que terá achado de mim?
Mas nossos olhares se cruzaram
e desconversaram
para nunca mais.

versos e fotografia por Eduardo Trindade

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Para começar o dia

Sempre vou ao trabalho de ônibus. É um trajeto de pouco menos de meia hora, que costumo fazer lendo ou dormindo: na maioria das vezes, durmo. Habituei-me a despertar quando o ônibus se aproxima da última curva antes da parada. Um automatismo do tipo que a rotina costuma criar. Não reclamo: é bom ter estes minutos a mais de sono durante a viagem.
Hoje de manhã. O ônibus se aproxima da tal curva e eu estou abrindo preguiçosamente os olhos. Há uma sinaleira, um pouco de trânsito, e o ônibus para, à espera.
Outro ônibus para ao lado do meu.
É quando eu reparo, através da janela, uma criança que olha para cá. Tem uma das mãos apoiada no vidro do seu ônibus. Esta mão me faz um aceno tímido, este menino me olha nos olhos com uma pureza que eu não sei descrever. Sei que definitivamente desperto. E assim o menino ganha um sorriso meu. Natural como os gestos que não esperamos. E espontaneamente minha mão responde ao aceno.
Então me dou conta de que o ônibus ao lado está repleto de crianças pequenas de uma escola pública. Curiosas, disputam espaço nas janelas. São rostos variados: alguns sonolentos, outros distraídos, outros ainda surpreendentemente atentos. E tantos sorrisos. Eu também estou sorrindo, olho para cada um destes rostos e me retribuem com um brilho de alegria! Agora são mãozinhas próximas à janela, todas acenando para cá!
A sinaleira já está verde, meu ônibus começou a se mover e vai deixando o outro para trás. Anda devagar, e eu vejo as janelas passarem em câmera-lenta. Meninos e meninas, cada qual com uma história. Não sei o que esperam do dia mas parece que, naquele instante, não desejam mais que um sorriso e um aceno deste homem aqui do outro lado, homem que parece fazer parte de outro mundo, mundo dos adultos. Eu.
Já nossos caminhos se separam, estou chegando ao trabalho. Meu último olhar capta o olhar de uma menininha desconfiada. Gosto de imaginá-la com uma curiosidade disfarçada em timidez. Hesitamos um instante, então ela começa a tamborilar devagar com os dedos da mão na janela, é sua forma de acenar para mim. Repito o gesto com a mão ondulando no ar. É bom-dia, é aceno, é despedida. E é a maneira que encontro de agarrar aquele instante para ainda me lembrar dele quando já forem outras as ondas trazidas pelo vento.

crônica e fotografia por Eduardo Trindade

domingo, 20 de setembro de 2009

Há uma saudade

Há uma saudade que enternece e outra que entristece,
uma que convida à ação e outra que nos deixa sem ação.

Que sentido temos dado às nossas ausências?



Eduardo Trindade

sábado, 12 de setembro de 2009

Bom dia

Raia enfim
com teus olhos
de poesia.

Desabotoa
teu sorriso
de marfim.

Que belo o dia
quando amanheces
em mim.




por Eduardo Trindade

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Desenho na calçada

Risco a calçada com um caco de tijolo.
Um sol, uma casa... Um menino
emerge, por encanto, do chão.
Sorri, sorrio. E dançamos juntos
de mãos dadas em frente à casa
onde eu costumava brincar.
O sol se faz luz e raios
enquanto dura o dia.
A tarde é grande aos olhos de criança.
Que retêm o tempo. As sombras se alongam,
enfim, então vem a noite
e com ela uma nuvem molhada
restitui o menino à calçada,
os rabiscos ao nada,
a compostura ao homem feito
e parto, intimamente radiante
como um sol cor de tijolo.

versos e imagem por Eduardo Trindade

sábado, 29 de agosto de 2009

Quando os livros vão para o lixo

Saí de casa para retirar o lixo, como de hábito. Caminhei alguns metros e depositei o saco junto a outros, que seriam recolhidos pelo lixeiro, como de hábito. E, como de hábito, às vezes reparo em coisas simples que estão à minha volta.
Foi assim que percebi que, entre os tantos sacos de lixo depositados pelos meus vizinhos, havia um pequeno volume. Um livro. Sartre.
Sartre, o famoso filósofo e escritor francês, que venceu e recusou um Prêmio Nobel, dormia junto com o lixo a alguns passos de minha casa.
Verdade que não se tratava da sua faceta mais notória, que lhe deu garantiu o reconhecimento como intelectual e ativista, mas de uma obra póstuma relativamente obscura. Ainda assim, era um livro. No lixo.
O que eu fiz, penalizado com aquele destino inglório, foi obedecer a um impulso: resgatei o livro e levei-o para casa. Para minha sorte, o volume estava coberto por uma espécie de capa que o protegia da imundície. Um volume usado e manuseado, sim, mas ileso.
O livro, como qualquer outro, permitia diferentes leituras. Neste caso, não tenho dúvida de que a principal delas é: o que fazia um livro no meio do lixo? Quem o teria largado ali? Embora estivesse protegido pela tal capa, não acredito que a intenção fosse colocá-lo à disposição de outro leitor, afinal uma montanha de lixo é uma biblioteca bastante improvável. Não. Eu me espantei foi com o simbolismo da cena. É preciso coragem para lançar livros ao lixo neste mundo tão carente deles. Ou então despeito: os filósofos, como se sabe, não têm fama de simpáticos. Pelo contrário, costumam ser densos, pesados e carrancudos. Ao lixo, então, com eles! Melhor seria talvez se fizessem uma fogueira: não haveria vestígios do sumiço nem intrometidos como eu dispostos a resgatar livros da lixeira.

Por Eduardo Trindade.
Crônica publicada também no jornal O Globo de 31/8/09.