sábado, 29 de outubro de 2011

Travessia

Que o poema seja livre
como uma travessia de veleiro.

Que o travesseiro seja porto,
princípio e meio.

Mergulhemos na cama
como quem viaja.

Mudos ou loquazes:

qualquer suspiro é um mundo
para quem sonha.


Eduardo Trindade

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sabiá

Alguém dirá
“Não é de ti que tenho saudades,
mas do mundo que representas.”
Será dito
“Quem dera não mudasses,
eu permaneceria o mesmo.”
Há quem não admita a mudança
e mude sem perceber.
Está escrito
“Quem espera sempre alcança”,
mas podem tudo as palavras,
não as pessoas.
“Esperarei”,
e espera-se demais
ou espera-se de menos.
Na despedida:
“Eu te amarei para sempre.”
Sempre distante de quem se amou,
distante ainda mais de quem se julga amar,
há quem pense sem dizer
e há quem fale sem pensar.
Lá fora, há de cantar
um sabiá.

Eduardo Trindade

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Amar é fazer valer a pena

Chegará talvez um tempo em que parecerá tarde demais, então te buscarei num dicionário de palavras proibidas, num livro de vocábulos nunca ditos, numa biblioteca de sensações inéditas.
Tempo haverá em que não precisaremos de mais tempo para nos entendermos. Desprezaremos os idiomas. Não se tratará de aprender tua língua, apreenderei tua língua nos meus lábios, e tuas mãos estarão nas minhas, teu abraço estará no meu. Confundirei o meu e o teu numa palavra.
Nosso mundo será livre quando libertarmos nossas palavras, nossos corações serão livres quanto liberto também estiver nosso silêncio.
Chegará um tempo em que só nos restará ir além. Só nos restará fazer valer a pena.

Eduardo Trindade

sábado, 30 de julho de 2011

Enquanto lá fora

Enquanto esta chuva molhar as pedras da rua
ou este vento sacudir as bandeiras do varal
e varrer as folhas do nosso jacarandá
deixando sempre outras folhas de outras árvores,

enquanto o sol pintar de reflexos nosso dia
ou esta noite cobrir de saudade nossos olhos,

enquanto caminharem pacientemente as dunas da praia,
sutil ampulheta de vento e tempo e areia
a medir não sei o quê,

enquanto sentir um não-sei-o-quê
(e sei que vou senti-lo)

vou te dar todo o sentido

que não sei se é infinito
pois não sei medi-lo

mas que é o sentido

da pele eriçada, da respiração suspensa, do coração aos pulos.

Do abraço apertado e dos olhos fechados
enquanto a chuva, o vento, o tempo
passam lá fora.

sábado, 16 de julho de 2011

A quem cabe na palma da mão

Bazoguita.
Túti, chegaste há tanto tempo que os detalhes são imprecisos, chegaste bebê, eu era guri e o mundo era um mundo. Chamaram-te Túti, chamamos-te Túti, eu fui o único a insistir no acento em teu nome (paroxítona terminada em i), mas não importava tanto, não assinavas, tua assinatura era teu latido.
Durante uma vida foste nossa cachorrinha. Durante quatro lares foste nossa irmãzinha. Quatro casas, mais as temporadas em Capão da Canoa, quando corrias na praia mas tinhas medo do mar, mais a casa temporária da Glória, em que outra cachorrinha, a Bibi, vivia te importunando (lembras?), mais algumas outras em que fomos visitas, tu que estavas conosco, tu que eras da família.
Tu que cabias na palma da mão, tu te lembras de uma foto em que estás toda encolhidinha dentro de uma pantufa, a cabeça apenas para fora? Não cresceste muito, os da tua raça não crescem muito, continuaste cabendo num colo, num abraço. E não é preciso mais que a palma da mão para um carinho. Quando há carinho, o mundo cabe na palma da mão.
Cresceste com nosso irmão Tiago, lembras como ele era também pequeno, quase como tu? Lembras quando começamos a conversar contigo numa língua inventada, brincadeira de criança? Bazoguita, matuia, tutipum. Olhavas, nem sempre respondias, mas entendias. Era o nosso segredo.
Durante quantos churrascos fomos uma família. Quantas brincadeiras, escadas (sempre tive medo de que as escadas fizessem mal à tua coluna, tu que eras tão frágil). Passeios no Brique, idas ao parque.
Saí de casa e passamos a nos ver menos, nunca pudeste me visitar, mas com que alegria eu te visitava e com que alegria me recebias. Como gostavas do sofá, com que alegria me convidavas para sentar junto contigo, tu que deitavas no sofá com a cabeça sobre a minha perna e me obrigava a te pedir licença sempre que eu precisava me levantar. Uma vez apenas foste te despedir de mim no aeroporto e te expulsaram, o aeroporto parece que não é lugar para cachorros. Ficavas agitada quando me vias arrumar uma mala, temias as despedidas. Às vezes eu saía de madrugada para o aeroporto e te deixava dormindo, despedia-me em silêncio por não querer te acordar, mas como doía. Como dói não poder se despedir.
Então chegou o dia de hoje e foi tua vez de ir embora. Sim, como dói não poder se despedir. Espero que tenhas sido feliz, espero que tenhamos sido uma boa família.
Sejas feliz, é o que dizias a cada um de nós, é o que te dizíamos. Bazoguita.
É o nosso segredo.

sábado, 9 de julho de 2011

Vento



O vento frio do crepúsculo
fazia mover sem sentido
as sombras de antigas lembranças,

sobras estacionadas
na contramão do tempo.

sábado, 2 de julho de 2011

Vertigem

Esta vertigem pensei que se devesse à tua presença.
Então veio a noite
e pensei que se devesse à tua ausência
esta vertigem.

Atrás de ti a porta aberta,
esta friagem,
aragem.

Uns olhos úmidos,
imperfeitos,
nunca confessaria que fossem por ti
(perfeição).

As paredes giram,
a janela,
as estrelas,
vertigem!

Mil rostos giram,
espelho e caleidoscópio,
vertigem.
Vejo-te em cada rosto
mas não estás
no quarto vazio
que é só
vertigem.

versos e fotografia por Eduardo Trindade

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Boneca Russa


Amo o universo que escondes
no infinito que insinuas.

Amo o tempo além do tempo
que trazes no ventre
e sobretudo no olhar.

Não tenho medo de chegar aonde terminas,
quero é descobrir onde começas.

versos e imagem por Eduardo Trindade

domingo, 12 de junho de 2011

O Mapa das Nuvens

Eu quero o mapa das nuvens
e um barco bem vagaroso.

Mario Quintana

Chega um ponto em que é preciso fazer escolhas, tomar decisões, enfrentar o abismo. Há algo que se sente e que seria simplista demais resumir em uma única palavra — amor, paixão, ou qualquer outra que se inventasse. Algo que atrai como o desconhecido, que amedronta como o escuro. E que, sendo belo e luminoso, faz-nos querer manter os olhos fechados. Sonhei-te, dancei-te, beijei-te em silêncio, escrevi poemas, falei bobagens — insisti nas bobagens porque tinha medo das coisas sérias. De tanto querer o próximo passo, acabamos adiando-o com medo de um passo em falso. Este temor que paralisa, que nos faz esquecer que a corda é bamba. A corda vibra mesmo quando tentamos nos manter imóveis. Tolo comodismo. A estrada só se abre a quem segue em frente. Só quem se move pode manter o equilíbrio, é como andar de bicicleta. A natureza é sábia. Criou-te e criou cada um dos instantes em que nos encontraríamos. Pisquei os olhos e percorri tua pele. Levei-te para a cama uma, duas, três vezes (não é verdade que eu não saiba quantas vezes foram, lembro-me dos detalhes de cada uma delas, mas a frase em forma de dúvida aguça a mente e a imaginação, e o que mais quero é me unir a ti até o infinito). Cultivo a dúvida porque não sei viver sem a certeza; entender meus motivos deve ser complicado, é tudo medo. Mas quero é entender teus recuos e saltos, teu bote, a brisa que te traz, o mar em que me perco. Mar de sentidos (e um abismo de escolhas). Não há sentido sem tua presença. Contigo escolho enfrentar o abismo, contigo darei a volta ao mundo, e iremos pelo caminho mais lento, o caminho que dê tempo às nossas descobertas.

texto e fotografia por Eduardo Trindade

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Cidade Estranha


Então aconteceu que, longe de ti, o mundo já não era grande o bastante para eu me perder nem pequeno o suficiente para me acolher.

Imagem: Google Maps