sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Bolo de chocolate


Sim, seu moço, o senhor não vai fazer a desfeita de recusar o meu bolo de chocolate, não é? Este bolo é famoso, minhas irmãs sempre disseram que eu era a mais talentosa na cozinha. E as minhas colegas sempre disputavam cada pedaço quando eu levava um pouco para elas, o senhor precisava ver.

Mas, como eu ia lhe dizendo, era raro a gente poder servir uma mesa farta assim lá na minha cidade. Não tinha luxo. A vida era mais simples. Mas a cidade mudou tanto, tanto... Quase nem reconheço.

Lembro que a cidade, mesmo, era só três ruas. Asfalto não tinha. Aquelas casinhas coloridas. E todas com um quintal grande, sempre, e bem cuidado. Ah, dava gosto ver. Mas mudou muito, sabe. A cidade cresceu demais. Inchou. Não parece mais a cidade da minha infância. Agora já faz tempo que tem água encanada, mas eu lembro que cada casa tinha o seu poço. Era do poço que a gente tirava a água. E era uma água pura, sim, que a gente sabia de onde vinha. Não tinha mistério. Era mais simples, como lhe falei.
Também não tinha essas modernidades de luz elétrica. Hoje parece que ninguém vive sem ela, mas, na minha época, a gente vivia. Os postes eram com lampião, sabe? Toda noite, ficava aquele cheiro na rua, dos lampiões. Mas ninguém se importava, até porque íamos nos recolher cedo. Depois instalaram um gerador na cidade. Foi então que pudemos ter rádio. Ah, mas o gerador só funcionava até as dez horas. Depois, era silêncio. Também, nosso pai desconfiava um pouco disso tudo. Mas nossa mãe nunca se importou com o rádio. Ela gostava era das canções que tinha ouvido da mãe dela e que repetia para a gente. Era tão bonito! O senhor quer ouvir?

Ah, antes deixa eu lhe preparar uma xícara de chá, o senhor aceita, seu moço? Ou prefere um suco? Estas laranjas aqui eu recém trouxe da feira, posso espremer num instante. Hummm, não precisa, um chá é suficiente, não é? Bom, mas como eu dizia, tinha canções tão bonitas! Algumas eram trágicas, mas mesmo assim eram bonitas. Eu gostava quando falavam de amor... Uma mulher, uma vez, se jogou do alto da pedra e foi cair direto no mar. Ela esperava o namorado, que era barqueiro, mas o rapaz chegou com outra e ela viu. Lá do alto da pedra. A canção diz isso. A pedra, o senhor sabe, à esquerda, chegando na cidade. Até hoje tem uma cruz lá no alto, é por causa dessa mulher.

Eu aprendi a cantar assim foi com minha mãe, desde cedo. Ela tinha uma voz tão bonita! E eu também, sabe, gostava de cantar desde pequena. Houve uma época que o rádio fazia uns concursos com as meninas lá do grêmio, sabe, e eu cheguei a tirar primeiro lugar. Eu sempre ganhava alguma coisa; os prêmios eram pacote de macarrão, pacote de bolacha. Aí, eu ia para casa toda orgulhosa.

O gostoso, também, era quando resolviam fazer uma serenata. Hoje em dia, ninguém mais faz serenata, o senhor sabe. Uma tristeza. Mas naquela época... Nem sempre dava certo: uma vez, meu avô descobriu um moço que vinha fazer serenata na nossa janela. O pobrezinho voltou para casa molhado e sem cantar... E virou assunto na cidade.

Porque todo mundo sabia de tudo, sabe? Eu, certa vez, começaram a me chamar de Sabiá. Porque eu vivia cantando, e por causa dos concursos. Depois eu parei, só cantava em casa, para os conhecidos.

Mas aí foi na época em que um moço começou a me visitar, o senhor entende? Um moço muito direito, minha família toda gostava muito dele. E ele gostava de bolo de chocolate. Desde uma vez em que minha mãe tinha feito bolo de chocolate e ele adorou. Mas, na mesa, ele não tirava os olhos de mim. E eu ficava arrepiada quando ele me olhava...

Foi então que eu aprendi a fazer bolo de chocolate. E ele continuou gostando cada vez mais...

Ainda tenho tanta saudade do pai das minhas filhas, sabe? Mas a vida mudou tanto! Quase nem me reconheço.

Ah, está satisfeito? Quer mais bolo? Pode ficar à vontade, seu moço, tem coisas que não mudam. Está vendo como minha filha não tira os olhos dos seus?
texto e fotografia por Eduardo Trindade

domingo, 19 de outubro de 2008

De pontes e de balsas


Punha-se a pensar durante horas,
indeciso.

Quem viajaria mais longe:

As balsas infatigáveis
que desciam o rio?

Ou as pedras imóveis
da ponte sobre o rio
que, nos pés de tantos andarilhos,
conheciam lugares nunca sonhados?

Nas viagens das balsas
o sonho das pedras...
E se o sonho das balsas
fosse descansar um dia?

Os dias passavam,
indo e vindo,
embalados pela velha inquietude humana.
fotografia e palavras por Eduardo Trindade

sábado, 11 de outubro de 2008

Pequeno Conto Diluído

Assistia à lenta difusão das folhas de chá na xícara.

Queria que o telefone tocasse, mas ele não tocava nunca. A televisão ligada disfarçava o silêncio.

No quarto, uma criança começava a esquecer o rosto de seu pai.

A água do chá se coloria em contato com as folhas.

Queria esquecer tudo. Lavar com aquela água quente as dores recentes. Mas a água estava quente demais, as dores eram recentes demais, e seus dedos queimavam.

Já se esquecia do jeito que o marido tinha de partir o bolo com as mãos, dos farelos que caíam e das discussões inúteis pelos farelos espalhados. Mas não queria se esquecer do chá repartido nas tardes de sábado – acompanhamento silencioso das brigas pelo controle remoto.

Por que aquele futebol de domingo à tarde na televisão sempre a irritara tanto? Agora, era com saudade que se lembrava dos gritos de gol que ecoavam pela casa.

No fundo da xícara, restava um punhado de folhas inúteis. Folhas que formavam o desenho de não-vês-que-sinto-a-tua-falta? Sentimento que insiste em não se diluir.

Mas o fantasma que se difunde nas frestas da porta e da memória está cada vez mais distante. Sabe que ele não voltará.

Para disfarçar o silêncio, coloca mais açúcar no chá.

Um grito de gol se espalha na televisão. Mas o telefone, como o coração, continua mudo.

palavras e imagem por Eduardo Trindade

sábado, 4 de outubro de 2008

Canção de mim e de ti

Como quem caminha sem rumo
Caminho para ti.

A flor do poema se abriu
E, com ela, as cores
E os espinhos do dia.

Como quem amanhece sozinho
Amanheço em ti.

A primeira nuvem do dia
É pequena, branca, fofa
E também nublada.

Como quem sonha acordado
De espada em punho
Sonho para ti.

Quantos dragões ainda
Será preciso vencer?

Como quem ama baixinho
Afasto-me de ti.

A canção que sussurra agora
É flor, poema, nuvem, espada.

Como quem enlouquece devagarzinho
Entrego-me a ti.

versos e fotografia por Eduardo Trindade

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Além dos Livros de História

Sabe essas cidades
em que as calçadas de pedra
falam?

Pois descobri uma cidade
em que as paredes
é que sussurram,
atrás das portas fechadas,
beijos longínquos.

Eu te faço, então, o convite
para um novo beijo
no ritmo daqueles tantos
beijos de outras eras
- infinito.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Busca


Em vão procuro
o eco de teus beijos
no silêncio de teus passos.

O relógio não pára.

sábado, 2 de agosto de 2008

As Valsas Invisíveis

Hoje eu tenho uma novidade das boas: depois de alguma expectativa, estou lançando meu primeiro livro, As Valsas Invisíveis.
O estilo do livro é o que alguns de meus amigos e leitores já conhecem - aliás, alguns textos dentre os que eu listei aqui há alguns dias efetivamente fazem parte do livro.
E mais notícias boas: o lançamento será no dia 15, com uma sessão de autógrafos na Bienal do Livro de SP! Assim, fica desde já o convite a quem puder aparecer. A presença de cada um será um grande prazer! Aos que não puderem, fica, mesmo assim, o convite para prestigiar minha obra e divulgar para possíveis interessados.
Então, vamos lá:
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O quê: sessão de autógrafos de As Valsas Invisíveis, livro de estréia de Eduardo Trindade
Quando: 15 de agosto às 15h
Onde: Bienal do Livro de SP – Anhembi – estande da editora LivroPronto, na esquina da rua M com a av. 6
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Assim que o livro estiver à venda, prometo voltar a informar.
E espero que torçam para que dê tudo certo!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Canção Vagarosa


Vejo-te despercebida
do mar em que navegas.

Vagas vagarosa
em vagarosas vagas.

Uma flauta quebrada
no alto do mastro

sopra a canção despercebida
do vento vagaroso.

Vejo-te navegante
de uma canção do vento.

Sonho-te vislumbrando
o dia que já vem.

sábado, 12 de julho de 2008

Diana

Diana, a caçadora,
sustém o arco
contra seu maior inimigo
e o tiro sai ágil, certeiro,
fatal.

Pobre Diana!
Na pressa, tomara por engano
uma das setas encantadas
de seu sobrinho,
Cupido.

Texto e foto: Edu Trindade
Licença poética: a retratada é, na verdade, a ninfa Eco, apaixonada por Narciso

domingo, 22 de junho de 2008

Ave de Arribação


Gosto de deixar a interpretação das minhas obras a cargo de quem as observa. Neste caso, o título é uma pista, chamando a atenção para a ave que paira sobre a cena. Sendo de arribação, ela alçou vôo vinda do solo; as cores também mostram isso, com o tom da ave "pertencendo" à paisagem de tons quentes. Tons quentes, mas entre os quais só se vê as pequenas formigas. O que terá levado a ave a querer sublimar este espaço?