domingo, 1 de fevereiro de 2009

Paralelas que se cruzam

Há cidades musicais, cidades visuais, cidades gastronômicas... Há inclusive cidades fantásticas que combinam várias facetas, num convite aos sentidos – embora quase sempre exista uma face mais marcante, onde reside a alma do lugar.

Encontrar a alma de uma cidade exige paciência, disposição e um olhar atento, ao mesmo tempo imparcial e apaixonadamente envolvido com a rotina do lugar. Não é fácil. A alma não está nos guias que se vendem em bancas de jornal nem nas atrações, por vezes pasteurizadas, que eles descrevem. A alma vai além: não seria alma se fosse superficial e estivesse ao alcance do primeiro toque. Porém, passeando mais que viajando, perdendo-se mais que se encontrando, ouvindo mais os feirantes de rua que os guias de museus, descobrem-se aspectos interessantes. Similaridades insuspeitas. Familiaridades que não se teria imaginado.

Acontece com Belém. Poucos lugares poderiam ser mais diferentes da minha querida Porto Alegre natal que a capital paraense, certo? Pois eu não saberia citar cidades mais incrivelmente parecidas que estas duas.

As similaridades são um pouco visuais, com as avenidas arborizadas, a arquitetura neoclássica e a presença do rio como referência – rios de cor e largura semelhantes banham tanto Porto Alegre quanto Belém. E a paisagem da margem oposta, em ambos os casos, é a mesma. O clima de Belém, quente e úmido, não é tão diferente do verão porto-alegrense. Aspectos assim contribuem para que um visitante gaúcho se sinta em casa em Belém sem grande esforço – apesar das inevitáveis diferenças, como a gastronomia e os traços fisionômicos.

Diferente de Porto Alegre seria o mercado do Ver-o-Peso, marca registrada de Belém e símbolo do que, a meu ver, está na alma desta cidade: a variedade de frutas, farinhas, peixes, camarões. Sabores e, sobretudo, cheiros. Belém é uma cidade olfativa por natureza. A maniva, o tucupi. Pessoas temerosas da culinária exótica (dizem que a maniva crua é venenosa e deve ser cozida por sete dias para ser consumida sem perigo) podem até tentar passar longe de seu sabor. Mas não escapam dos cheiros que permeiam toda a cidade, nas feiras de rua, no atracadouro dos pescadores, nas tacacazeiras em qualquer esquina. Diferente de Porto Alegre? Pois uma das lembranças marcantes da minha infância é o forte cheiro de peixe do nosso Mercado Público. O cheiro já não é tão forte desde a reforma de alguns anos atrás, mas está suficientemente presente na memória para ser associado aos peixeiros do Ver-o-Peso.

Ver-o-Peso de Belém com cuias para o tacacá. Porto Alegre com cuias para o chimarrão.

Há em tudo isso o espírito de ambas as cidades: provincianas que sonham em ser metrópoles, a um tempo se orgulhando e se ressentindo do distanciamento do centro do país. E passando o tempo em rivalidades quase infantis com o vizinho, seja ele Santa Catarina ou o Amazonas. É preciso viver a fundo um lugar assim para compreender este mal-disfarçado orgulho provinciano e perceber que a sua essência é a mesma nestas duas cidades portuárias.

Os Engenheiros do Hawaii cantam, numa bela música com sotaque gaúcho: “Paralelas que se cruzam em Belém do Pará”. É mais do que uma figura de linguagem: Belém possui, realmente, ruas paralelas famosas por se cruzarem. Não chega a ser surpreendente se considerarmos que as tais ruas não são exatamente paralelas, mas oblíquas, como ocorre em muitas outras cidades. Mas é simbólico. Ainda mais quando cantado por um porto-alegrense: esse infinito em que as paralelas se cruzam, embora distante, nunca foi tão próximo.


Porto Alegre, o Guaíba e seu famoso pôr-do-sol.

Belém, o Guajará e outro pôr-do-sol.

por Eduardo Trindade (texto e imagens)

7 comentários:

ANA LÚCIA disse...

É por aí,
Cada cidade tem suas características, suas cores, aromas, composição de formas e estilos. Cada qual com sua beleza, mas se cruzam quando a natureza está em harmonia com todas elas... É mais ou menos assim!!
Abçs,
Ana

Ariane Rodrigues disse...

Bem convincente a sua resenha. Deu até uma vontade de seguir as paralelas... Abraço!

iarashi disse...

Fiquei com vontade de descobrir a alma de Belém, que ainda não conheci, já porto alegre, foi adotada como cidade do coração.

Rafaela Gama disse...

Sou de Belém do Pará e fiquei emocionada com o seu texto sobre as semelhanças entre Porto Alegre e Belém! Fiquei muito feliz de saber que existem pessoas que gostam daqui, afinal, nós paraenses sabemos quanto preconceito sofremos em outras regiões do Brasil! Parabéns, adorei o texto e sua peculiaridade.

Sentimentalidades-Todas disse...

Imagina para essa paraense ver um gaúcho falar com tanta propriedade da minha terra. De cheiros, sabores e sons (embora não tenhas falado nisso, acho imprvável vc ter não ter escutado as batidas do curimbó, instrumente de percussão de origem índigina e base para o carímbo, o ritmo).
Para minha surpresa, nossas cidades são tão semelhantes quanto ressentidas como nossos respctivos vizinhos....rs.. vai entender...
Enfim, acho mesmo que vc conseguiu ver Belém com olhos de admiração e intimidade e não atravez da tola avidez do turista pelo exótico.

abraços!!!!
Mônica

Pati disse...

Excelente texto. Não conheço ainda Porto-Alegre, mas muitas pessoas me dizem que perceberam paisagens parecidas nas duas cidades tão distantes que lembram o infinito. As avenidas paralelas de Belém seriam portanto Padre Eutíquio e Alcindo Cacela?
Abraços

Verena Feijó disse...

Sou paraense e casada com um gaucho. Cheguei a morar um ano em POA e percebi as mesmas semelhaças entre essas cidades :) Porem, é muito bom saber que os engenheiros (que é uma banda que tanto amo) fezeram uma música em homenagem a minha terrinha. O Pará é realmente um lugar cheio de características marcantes a começar pela culinária e pelas frutas exóticas, passando pelo povo que é muito alegre e hospitaleiro e não esquecendo também da sua riqueza cultural regada a danças típicas como o carimbó, cores e cheiros característicos da região como o banho-de-cheiro. Como diz o ditado paraense "Quem vai ao Pará parou, tou o açai ficou"

Grande beijo
Verena Feijó