domingo, 15 de maio de 2011

Chapéus

Aquela cena clássica do homenzinho, geralmente humilde, segurando o chapéu com as duas mãos. Treme de nervosismo, pode ser um capanga incumbido de dar uma notícia ruim ao chefão ou um caipira prestes a pedir autorização ao sogro para casar com sua filha. Aperta instintivamente o chapéu, torce a aba, parece querer mordê-la com os dedos. É um cachorro acuado que, no entanto, não corre do seu destino.
As diferentes formas de se oferecer um cumprimento. A mão em pala erguida energicamente à altura do quepe. Um leve toque com os dedos na aba, reconhecimento mútuo entre velhos camaradas. O chapéu de copa emplumada girando até o chão num gesto teatral que inclui todo o corpo, suprema galanteria de capa e espada.
Um sutil ajuste na altura do chapéu, a tempo encobrindo e revelando os olhos que, estes sim, num quase-improviso de palco, lançam uma mirada fatal a uma bela mulher, dizendo tudo sem dizer nada. A sedução de quem está em Casablanca nos anos quarenta, de preferência em preto e branco e na tela grande. Seria possível a uma mulher provida de coração resistir?
Confesso que ensaiei algumas vezes este gesto: ajustava o chapéu, baixava sutilmente a cabeça, erguia mais sutilmente ainda os olhos, desenhava com os lábios o sorriso invisível de tanta sutileza. Funcionava? Bem, só pratiquei diante do espelho, e ele nunca respondeu. Talvez fosse o chapéu errado.
Verdade é que não é fácil achar o chapéu certo hoje em dia, ninguém mais o usa. Por isso, não perdi a oportunidade quando avistei, em Roma, uma legítima chapelaria. Sorri diante dos chapéus de madame. Admirei as cartolas e os chapéus de mafioso - mesmo sabendo que estes não eram (ainda?) para um amador como eu. Meus olhos pousaram então num "cappello tascabile" (chapéu de bolso, ou dobrável), belo apesar do nome, que parecia um fantástico compromisso entre a elegância e a praticidade. Chamei a atendente dizendo que queria experimentar e me surpreendi com a precisão com que ela acertou o meu número. Minha cabeça é notoriamente pequena, ajusto os bonés na posição mais apertada, certa vez coube em mim um capacete de brinquedo que havia ficado pequeno em meu irmãozinho, noutra vez alguém brincou comigo perguntando como eu podia ser tão inteligente com uma cabeça tão pequena, ao que respondi, também brincando - vai ver ela é pequena, porém densa.
Pois a moça da loja bastou olhar para minha cabeça e escolheu para mim um tamanho que cabia como uma luva. Ou como um chapéu. Experimentei, aprovei, paguei, saí para a rua contente da vida. Agora resta praticar aquele gesto, desta vez com o chapéu certo, e principalmente para a mulher certa. Sempre te quis fazer poesia com os olhos.

3 comentários:

rejane disse...

Estou louca pra conhecer esse chapéu!!!

Marina disse...

Cadê a foto do chapéu??

Luís Coelho disse...

Chapéus há muitos meu amigo!.......
Passei por aqui e gostei.
Hei-de passar muitas mais até ter o prazer de te ver de chapéu na mão ou na cabeça, onde te assente que nem um chapéu e te sintas bem............