domingo, 13 de junho de 2010

Poema do Dia de Santo Antônio


A vendedora de flores,
senhora dos sentimentos alheios,
queria tanto ganhar uma rosa!

Uma prenda anônima, ainda que fosse...


Texto e imagem (rapariga das flores em Ponta Delgada)
por Eduardo Trindade

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Do que aprendi com o mar

Um mundo.
Onde, de todos os dias iguais,
nenhum é igual ao outro. Ondas.
Maré e correntes, vai e vem, ficar, ir e voltar.
O mar. As portas do cais, sonhar, para onde?
O sal do azul que ensina a verter lágrimas,
lágrimas que ensinam a ter coragem.
Gaivotas. Voar? O mar, o ar.
E o vento. Sopro, brisa, as velas estendidas
como braços. Abraços.
Chuva, tempestade, noite e dia, dia após dia,
a pele curtida. O sol
e as cores do sol refletidas n’água.
Águas que espelham teus olhos.
Olhos onde ancorei meus sonhos,
os sonhos que aprendi com o mar.




versos e fotografia por Eduardo Trindade

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Carta

Hoje faz anos que te foste. Aniversarias. Comemoro? Certas datas não se comemoram, por mais marcantes que sejam, ou surpreendentes, ou inebriantes. Não me acostumei ainda ao silêncio da tua cadeira de balanço. Lembras como balançavas, e rangias, e fazias tremer o assoalho? É difícil se acostumar a certas ausências. Pensava que durarias para sempre, mas ensinaste que nada é para sempre. Ensinaste da maneira mais dolorosa.
Lembras-te das nossas brincadeiras? Eras criança em teu corpo de vovó. Eras a criança mais travessa dentre todos nós. Mas os adultos confiavam em ti, confiavam-nos a ti. Mal sabiam que rolavas conosco pelo chão, empanturrava-nos de doces e inundavas a casa em guerras d’água. Quando voltavam, tu inventavas histórias para tranquilizar os adultos! Éramos todos anjinhos.
És hoje o meu anjinho. Não sei, para falar a verdade, quando é o aniversário da tua partida. Sem tua presença, os dias se confundem. E eu, sem ter uma criança-adulta com quem brincar, acabei crescendo. Virei um adulto procurando em mim a criança que foste. Brinco em tua homenagem, faço traquinagens à semelhança de ti. Lembranças? Esforço-me para não esquecer, e de repente te ouço no rangido do assoalho quando atravesso a noite. Buscando me encontrar, reencontro-te.

Eduardo Trindade

terça-feira, 18 de maio de 2010

Entrevista no Ensaios em Foco

O Ensaios em Foco, da talentosa e simpaticíssima Talita Guimarães, está com uma série de reportagens sobre o prêmio Top Blog e acaba de publicar uma entrevista minha em que abordo as motivações para escrever, minha relação com a blogosfera e o prêmio em si. Deem uma conferida aqui!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Da espera

Não aprendi a esperar sentado.
Espero gesticulando,
ou com as mãos para trás e os pés frenéticos
andando em círculos e levantando poeira.
Espero impaciente.
Corro atrás para chegar na frente,
assim espero.
Às vezes, eu me desespero
de tanto esperar.
Esgoto a frase até desvendar as entrelinhas,
vasculho teus olhos em busca de um brilho
que não seja lágrima,
dos teus olhos espero.
Adormeço para poder sonhar,
sonho para poder despertar.
Desperto, espero
oferecendo flores, canções, cartas, passagens, viagens.
Porque vivo de criar minha própria esperança,
assim espero.


Eduardo Trindade

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Prêmio TopBlog

Alô, gente! Este nosso ponto de encontro virtual está concorrendo ao prêmio TopBlog 2010! Vocês já votaram? O link está aqui ao lado!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Noite de Lua à Beira-Mar

Entornara num só gesto o trago que trazia na taça.
Esperava esquecer,
substituir de golpe a ressaca do grande amor
pela ressaca
dura e impessoal
da bebida.

Em vão.

Entregou-se então à ressaca das ondas da praia
a beijar enfim seu corpo
duro e impessoal
num último gesto de piedade
do mar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Paisagem

Volto ao parque da minha infância.
As árvores, vejam só, ainda estão lá:
uma paineira, de repente, já desdentada,
pinheiros espalhados
e o aroma de eucaliptos.
Em tudo a mesma canção.

Um bosque de bambus vibra com o vento:
estala e range com o vento.
Parece a cantiga
antiga
agora renovada
dos barcos no cais querendo se soltar,
rangendo as amarras
em busca de novas melodias.


Poesia em Foco
Não percam a excelente resenha que a escritora e em-breve-jornalista Talita Guimarães elaborou sobre As Valsas Invisíves em seu blogue. E lembro que quem quiser adquirir um exemplar do livro, além de procurar nas livrarias, pode entrar em contato comigo.


Por Eduardo Trindade.
Fotografia no Parque da Redenção e versos neste e em outros recantos de Porto Alegre.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Éden

este texto na voz do autor



Em algum ponto da estrada perdemos nossa inocência.
Começamos bem, até. Queríamos ter tudo, queríamos ser tudo, e acreditávamos sinceramente que seríamos. Teríamos a felicidade. Continuaríamos brincando mesmo depois de adultos. Seríamos livres, educaríamos nossos filhos de maneira diferente, não poluiríamos o planeta nem seríamos tolerantes com a injustiça. Salvaríamos o mundo.
Rezaríamos todos os dias para o Papai e a Mamãe do Céu. Conversaríamos com nosso Anjo da Guarda.
Praticaríamos uma boa-ação todos os dias. Juramos ser bons.
Nossos juramentos eram coisa muito séria.
Juramos amar eternamente. Nunca haveria ninguém mais feliz, nem espelho mais perfeito que o casal que formaríamos. Amar seria natural, acreditar era fácil. Trocar olhares seria sempre motivo de orgulho. Inventaríamos novos carinhos. Faríamos sexo de um jeito só nosso, e seria bom e límpido como tudo era límpido e bom.
Teríamos um ao outro sem que o nosso ter significasse possuir.
Mas, em algum ponto da estrada, nós nos distraímos.
Faríamos muitos amigos e nos daríamos bem com todos eles, mas um dia nós nos descobrimos de cara amarrada.
Acabamos falando a frase errada na hora errada. Então, sacudimos os ombros, fora só uma frase. Nem percebemos que alguma poeira foi ficando pelo caminho.
Quisemos mudar para a fila ao lado porque ela parecia andar mais rápido. Certa vez, quando ninguém reparava, ousamos burlar a fila.
Sabíamos que Deus nos perdoaria.
Tínhamos tanta certeza de que Deus nos perdoaria que esquecemos Deus, esquecemos qualquer deus que pudéssemos ter.
Um dia, sentimos vergonha de nossos corpos. Cobrimo-nos. Culpamos a idade, as rugas, os cabelos desgrenhados.
Culpamos. Culpamo-nos.
Duvidamos de nós mesmos.
Tivemos medo de que o amor pudesse machucar. Sem perceber, impusemos condições ao amor.
Descobrimos que o medo pode machucar.
Quando a noite chegou, demoramo-nos decidindo o que fazer. E, ao concluirmos que precisávamos um do outro, era tarde, já estávamos distantes.
Agora buscamos, na estrada, a bifurcação onde nos separamos. O medo se instalou e dura mais que a noite, não sabemos se esperamos, voltamos ou seguimos. Talvez nossos caminhos se reencontrem, talvez o amor esteja lá atrás, na encruzilhada, em busca de uma segunda chance.
O remorso, com seus pés de curupira, quis tomar o lugar da esperança.
Mas, em algum lugar do coração, continuamos acreditando em nós como uma unidade, em nosso caminho como um caminho. E assim seguimos pela estrada, convencidos de que um dia, nunca tarde demais, descobriremos o que foi perdido, diremos o que não foi dito, e seguiremos, de mãos dadas, mais fortes e mais seguros para quando a noite voltar.

Eduardo Trindade

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Bolero, samba e silêncio


Já ouvira Iglesias, agora ouvia Caymmi. Este, uma excelente maneira de fingir felicidade.
Uma frase, uma única palavra mudaria o seu destino e o seu sorriso. Mas o telefone não tocava, o computador nem piscava, o carteiro não aparecia.
Resignou-se, tomou um pedaço de papel, escreveu, de si para si, a frase esperada.
Eu te amo.
E a noite chegou em silêncio, o samba esquecido no fundo de um beijo que não acontecera.

por Eduardo Trindade