domingo, 27 de junho de 2010

Radinho de Pilha

A geração mais nova, de MP3 players, iPhones e iPads, mal deve conhecer uma coisa chamada radinho de pilha. Como também alguns não devem ter muita certeza do que seja rádio AM. Eu, certa vez, orgulhoso do meu então moderníssimo aparelho de celular, que pega até rádio, resolvi sintonizar uma estação – estava na rua e ansioso pelo resultado de um jogo de futebol. Pois descobri que o celular é mesmo tão moderno que não pega coisas antiquadas como estação de rádio AM, pega apenas FM. Suponho que eu devesse ficar orgulhoso por meu aparelho ser tão alinhado às novas tendências.
Bem, sou insistente. Ontem, acompanhei dois jogos de Copa do Mundo num daqueles radinhos de pilha bem simplesinhos. Para quem não conhece, estou falando de um dispositivo que é umas dez vezes maior que um iPod e, no entanto, já foi o máximo da portabilidade. Alimentado por um modesto par de pilhas pequenas, que não precisam sequer ser alcalinas, pode ser levado facilmente para o trabalho ou para o estádio. O radinho de pilha tem um dial para o volume e outro para a sintonia. Dial é um tipo de botão redondo, como uma miniatura do disco do telefone... Quer dizer, deixa para lá, os telefones não são mais discados. O legal do radinho de pilha é que a coisa é meio mecânica mesmo, a gente gira o tal do dial e faz um ponteiro correr para lá e para cá dentro de um pequeno visor enquanto tenta sintonizar o sinal da estação. Mostrador digital de cristal líquido? O que é isso?
A sintonia do radinho de pilha não é nada fina. É algo mais grosso que dedão destroncado. Quando a gente consegue uma sintonia meia boca, já tira logo a mão do botão, com medo de perder o sinal. Às vezes, uma sacudida mais forte no aparelhinho basta para mudar a sintonia. E noutras vezes os sinais se misturam, a gente acaba ouvindo duas estações ao mesmo tempo – quem disse que só os computadores são multitarefa?
Experimentei tudo isso, ontem, enquanto ouvia o jogo. Tive até replay. Ou vocês acham que transmissão de jogo pelo rádio não tem replay? Pois saibam que, no intervalo e no fim da jornada, eles costumam repetir a narração dos gols. É mais emocionante que muita transmissão televisiva.
No final das contas, lembrei das tantas partidas que cheguei a acompanhar pelo rádio. Só faltou experimentar outro clássico do futebol da minha infância: deixar a televisão ligada no jogo, mas sem volume, e ouvir a transmissão pelo rádio. Às vezes, havia um descompasso entre a imagem e o som, mas e daí? Era divertido flagrar o locutor em esgoelamentos despropositais, narrando qualquer passezinho no meio de campo como se fosse lance de perigo. Talvez o locutor confie mesmo na hipótese de que só ele vê o jogo; a nós ouvintes, cabe tentar recriar a cena. Às vezes, é preciso um bocado de imaginação, e nisso reside boa parte da graça. É, acho que sou mesmo incorrigível: guardo uma ternura sincera por tudo que me permite sonhar.


Nota: sei que a foto de hoje vai desagradar metade do Rio Grande. Que fazer se eu pertenço à outra metade? Fato é que o Gre-Nal dos 5x2 foi um dos tantos que eu acompanhei ligado no rádio.

9 comentários:

Mi Müller disse...

Ah amigo ainda bem que fazemos parte da outra metade :D
Adorei a crônica, meu avô sempre, mesmo quando ia ao estádio ia de "radinho de pilha" em punho... nostalgia pura...

estrelinhas coloridas...

Noslen ed azuos disse...

Olá...bela lembrança, deu até vontade de ter um daqueles, muito legal; eu considero o rádio e o livro os melhor de todos aparatos que vinculam informarão por fazer q usemos da imaginação.

abração
ns

rejane disse...

Muito bom isso... mas mesmo que só a metade do RS goste da foto, as duas metades devem ter gostado do texto:)

Í.ta** disse...

nossa, essa de ouvir pelo rádio é coisa maravilhosa! fiz muito isso. mas hoje evito. sofro muito como torcedor nos jogos, e pelo rádio o sofrimento é sempre em dobro, rsrs.
é algo marcante em minha vida também!

muito legal esse teu escrito.
grande abraço!

Sentimentalidades-Todas disse...

Embora essa seja uma lembrança que fazia parte de um universo paralelo ao meu - o dos meninos - ainda sim recordo desse gosto compartilhado pelas gerações da minha família:meu avó, meu pai e os primos, ainda pequenos na época.

Que bom ter arquivos emotivos na caixola!!!

Abraços

Andrea de Godoy Neto disse...

Bah, Edu! sorte que eu li o texto antes de olhar a foto...senão não dava, né?
Gostei muito do texto. Mas, ptz, agora descobri que tu é colorado...rsrs

beijos

Sentimentalidades-Todas disse...

Olá, Edu!!!
obrigada pela sua passada lá no meu cafofo virtual...
Aproveitei o link que vc deixou e fui ler a paralela que aproxima nossas cidades. Adorável!!!
Deixei um comentário lá..
Abraços
Mônica

Azrael disse...

essas coisas "old school" como o radinho de pilha deixam saudades...

Aline Veingartner disse...

Tenho um tio que também não abre mão do radinho de pilha! Toda vez que vou à sua casa, está ele lá, ao café da manhã, ouvindo as notícias... É um charme!